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sexta-feira, 27 de maio de 2011

EVANGELISMO CARNAL: O método utilizado pela igreja contemporânea.

MESQUITA NETO, Nelson Ávila (E. T. C. S.)

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho se propõe a refletir brevemente acerca dos modelos evangelísticos atualmente adotados pela maioria das denominações ditas evangélicas e compará-los ao modelo utilizado por Jesus.

O termo “carnal” aqui é empregado para evidenciar um caráter que busca apresentar-se atrativo aos não crentes, por assemelhar-se as suas práticas mundanas, de modo a persuadi-los a tornarem-se participantes da igreja. Este segmento visa trazer para a congregação os modismos da sociedade, no que diz respeito a entretenimento, sob um novo rótulo: o “gospel”, ou simplesmente se utiliza de técnicas e metodologias, que embora não possuam sustentabilidade escriturística, são adotadas, dado seus resultados aparentemente “eficientes”.

A pergunta a que nos propomos responder é: “os resultados justificam os meios no processo evangelístico, ou apenas os meios evidenciados na Palavra de Deus (os quais denominamos: espirituais) devem ser empregados?

2 CRENTES CARNAIS SÃO FRUTOS DE UM EVANGELISMO CARNAL

Há algumas décadas divulgou-se dentro dos círculos evangélicos uma ideia concernente à existência de crentes carnais, ou seja, pessoas que haviam sido salvas por meio da fé em Jesus Cristo, mas que permaneciam a viver sem nenhum tipo de mudança aparente em seu estilo de vida pregresso. Tais pessoas poderiam passar a vida inteira na Igreja, sem, contudo, abandonar suas práticas mundanas, e ainda assim seriam consideradas crentes genuínas.

Tal ideia talvez tenha sido fomentada, a princípio, em virtude do método evangelístico pragmático, de caráter avivalista, extremamente divulgado e popularizado pelo famoso pregador semi-pelagiano Charles Finney, que, por meio de persuasão emocionalista e técnicas que visavam influenciar e manipular as decisões das pessoas, como, por exemplo, o “Banco dos Aflitos” [1], supostamente conduzia multidões a Cristo e, embora muitos continuassem imersos numa vida cheia de pecaminosidade, devido ao alegado “poder” de suas decisões em atender aos apelos dramáticos dos pregadores, eram declarados salvos e crentes. Prova disso é que MacArthur (2009, p. 267), citando um contemporâneo de Finney [2], escreveu que ao longo de uma década, onde quer que se fosse, uma multidão de pessoas era considerada como convertida, embora fosse conhecido o fato de serem poucos os verdadeiros convertidos de Finney; o qual chegou a declarar posteriormente que “‘[...] um grande contingente deles é uma desgraça para a religião’; como resultado destas deserções, terríveis, inumeráveis e grandes males práticos estão invadindo a igreja em todos os lugares” (2009, p. 267).

Mesmo que hoje a teoria do crente carnal não seja muito defendida abertamente, o legado de Finney, o qual ele mesmo, no final de sua vida, chegou a lamentar “[...] que havia surgido um novo tipo de avivamento com o qual ele próprio não poderia concordar” (LOPES, 2007, p. 34), enraizou-se em nossa cultura de tal maneira, que, na prática, tudo o que uma pessoa necessita para ser considerada salva em muitas igrejas é levantar a mão e ir a frente durante um daqueles momentos de apelo. O resto não importa; a salvação delas foi garantida ali, afirmam os pregadores modernos à semelhança de Charles Finney.

Se uma pessoa é considerada crente tão somente por participar com regularidade de cultos públicos, poderemos concordar com os proponentes da teoria do “crente carnal”. Todavia, se considerarmos o claro ensino das Escrituras, onde uma pessoa é julgada pelos seus frutos (Mt. 7:16, 20), não importando se ela professa “Senhor, Senhor!” (Mt. 7:21), ou mesmo se é capaz de realizar coisas impressionantes, como curas, exorcismos e milagres (Mt. 7:22), mas é simplesmente reconhecida por fazer a vontade do “Pai que está nos céus” (Mt. 7:21), então nos opomos firmemente a esta teoria, e declaramos a plenos pulmões que um evangelismo apenas interessado em trazer pessoas para dentro de templos, não importando quais meios sejam utilizados para isso, produzirá “carnais”, sem dúvida, mas jamais “crentes”.

Ao contrário do ensino de Finney, que, segundo nos é dito por MacArthur, acreditava que os fins justificavam os meios, seguindo os moldes de Maquiavel, e que “Um avivamento (bem como uma conversão) é um resultado tão natural do uso de meios quanto uma colheita resulta da aplicação dos meios apropriados” (2009, p. 264) [3], asseveramos que o “evangelho” sim, não as capacidades humanas, “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rom. 1:16). Para que esta verdade se torne evidente, analisaremos brevemente o modelo evangelístico empregado por Jesus.

3 O MODELO EVANGELÍSTICO DE JESUS VERSUS O MODELO EVANGELÍSTICO DO ENTRETENIMENTO

Brown (2005, p. 16), sucessor no púlpito de Spurgeon, apontando para os perigos deste tipo de abordagem evangelística pragmática, a qual tem encontrado no entretenimento a chave para alcançar seus objetivos, declarou que “poucas vezes o diabo tem feito coisa mais esperta do que dar à igreja de Cristo a sugestão de que parte de sua missão é prover entretenimento, com o objetivo de atrair pessoas às suas fileiras”. Ainda acrescentando que “em nenhum lugar das Sagradas Escrituras é mencionado que uma das funções da igreja é prover entretenimento ao povo” (2005, p. 16).

Isto provavelmente chocará as mentes de muitos cristãos, visto que a mentalidade de nossa era está impregnada da cultura pragmática do entretenimento, e a influência de filosofias como o relativismo e o pluralismo só contribuem com a promoção de um pensamento contrário ao que foi exposto. Faz-se necessário, então, recriar dentro dos círculos evangélicos aquela antiga prática encontrada entre os Bereanos, que tinha por objetivo provar tudo pela Palavra de Deus. Sabendo que nenhum cristão se oporá ao fato de que devemos ser imitadores de Cristo, olharemos de perto, agora, o método evangelístico de Jesus, a fim de descobrirmos Sua disparidade para com o método pós-moderno.

Enquanto as pessoas nas igrejas de nossos dias parecem estar dispostas a “tudo” em nome do “ganhar almas”, haja vista a expressão corrente nos lábios de muitos ser a de que se deve fazer “loucuras por Jesus”, acreditamos ser sensato meditar um pouco mais nas palavras de Paul Washer (2008, p. 9), o qual nos adverte quanto à tentação de, com o propósito de atrair uma sociedade corrompida ou membros de igrejas carnais, adaptarmos o Evangelho aos modismos de nossa cultura e aos interesses de homens não regenerados, suavizando assim sua ofensa ou tentando civilizar suas exigências radicais. Ele declara que “nossas igrejas estão cheias de estratégias para torná-las mais amigáveis por meio de uma reembalagem do Evangelho, removendo a pedra de tropeço, e suavizando a navalha”, e acrescenta que se nos esforçamos para tornar nossas igrejas e mensagens “mais acomodáveis, que as acomodemos a Ele. Se estamos nos esforçando para construir uma igreja ou ministério, que o construamos sobre uma paixão por glorificar a Deus, e um desejo por não ofender Sua majestade”. Devemos almejar as honras do céu e não as da terra (2008, p. 9) [4].

É interessante que no ministério de Jesus a pedra de tropeço permaneceu exatamente em seu lugar e a mensagem jamais fora suavizada com o objetivo de tornar-se mais atrativa à mentalidade carnal.

Em lugar algum das escrituras encontramos qualquer encorajamento a um modelo evangelístico respaldado pelo entretenimento; a ordem de Cristo é: “ide por todo o mundo e pregai o evangelho” (Mc 16:15). Em seu ministério foi assim que Cristo agiu, e quando ascendeu ressurreto para a glória, seu legado a igreja fora aquilo que Paulo registrou em Efésios 4:11,12: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”

Brown (2005, p. 17) questiona quanto a esta passagem: “Onde os entretenedores do público entram? O Espírito Santo se cala a respeito deles; e o seu silêncio é eloqüente (sic)”. De fato, parece que Cristo seria categoricamente reprovado na disciplina de Evangelismo e Missões na maioria dos seminários teológicos de nossos dias, pois Sua ênfase era a pregação da Palavra e o ensino, nada de gracejos ou concessões para que Sua mensagem fosse mais facilmente aceita.

O apóstolo João nos conta a reação dos ouvintes após um dos sermões de Jesus: “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (Jo 6:60) e “Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele.” (Jo 6:66). Brown escreveu acerca disso:

“[...] não observamos que houve qualquer tentativa de aumentar o número daquela reduzida congregação, valendo-se de algo mais agradável para a carne. Tampouco o ouvimos dizer: Precisamos manter a audiência, de qualquer maneira. Então, Pedro, corre em busca daqueles amigos e diz-lhes que amanhã teremos um tipo diferente de culto – uma reunião muito breve e atrativa, com pouca ou talvez nenhuma pregação. Hoje o culto foi dedicado a Deus, mas amanhã teremos uma noite agradável ao povo. Diz-lhes que certamente irão gostar e terão momentos aprazíveis. Vai, rápido, Pedro! Precisamos ganhar o povo a qualquer custo. Se não for pelo evangelho, então que seja pela tolice. Não! Não foi assim que Ele argumentou.

Cristo não voltara atrás, ou amenizara Sua mensagem. A reposta aos doze é inimaginável aos proponentes do evangelismo pragmático contemporâneo: “Quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo 6:67).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Afirmamos, portanto, que se realmente somos discípulos de Cristo, devemos ser Seus imitadores em tudo, e assim andar conforme Ele andava.

Observando a postura de Jesus, é inegável o fato de não haver qualquer relação entre Seu método e o método moderno, e isto, por si só, já deveria ser motivo suficiente para nos afastarmos de tais práticas. Contudo, o principal problema com o evangelismo moderno, embora admitamos que existem muitas boas intenções por parte daqueles que o utilizam, é o fato de ele se fundamentar nas capacidades humanas (carnais) em trazer pecadores aos pés do Senhor, e assim, revelar-se ineficaz, visto ser o homem incapaz de operar a obra da regeneração na vida de quem quer que seja. Logo, o método de Jesus, que já se apresenta como “loucura para o mundo”, nos leva a depositar toda a nossa confiança em Seu poder e na Sua graça em chamar os que são Seus a Sua presença.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROWN, Archibald. Entretenimento: Uma estratégia do inimigo. São José dos Campos: Fiel, Fé para Hoje, n° 27, 2005, pp. 15-24.

LOPES, Augustus Nicodemus. Cheios do Espírito. São Paulo: Vida, 2007.

MACARTHUR, John. Com Vergonha do Evangelho. São José dos Campos: Fiel, 2009.

SOUSA, Jadiel Martins. Charles Finney e a Secularização da Igreja. São Paulo: Edição Parakletos, 2002.

WASHER, Paul David. Scandalous Gospel. Muscle Shoals, Alabama: Heart Cry Magazine, n° 59, Nov – Dez, 2008, pp. 8-9 (tradução minha).



[1] “[...] um local reservado na parte da frente da congregação para onde iam as pessoas preocupadas com sua salvação, a fim de receberem oração ou serem orientadas de forma pessoal e direta” (SOUSA, 2002, pp. 137, 138).

[2] MacArthur retira esta citação do livro Perfeccionism, 2 vol. (Nova Iorque, Oxford, 1932), de B. B. Warfield, p. 23.

[3] Acréscimo nosso.

[4] “We must be careful to shun every temptation to conform our Gospel to the trends of the day or the desires of carnal men. We have no right to water down its offense or civilize its radical demands in order to make it more appealing to a fallen world or carnal church members. Our churches are filled with strategies to make them more seeker-friendly by repackaging the Gospel, removing the stumbling block, and taking the edge off the blade, so that it might be more acceptable to carnal men […] If we are striving to make our church and message accommodating, let us make them accommodating to Him. If we are striving to build a church or ministry, let us build it upon a passion to glorify God, and a desire not to offend His majesty. To the wind with what the world thinks about us. We are not to seek the honors of earth, but the honor of heaven should be our desire.”

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