terça-feira, 7 de setembro de 2010

A lei de Deus: um prazer de poucos!


Você se sente frustrado quando uma lei o restringe a não fazer algo que gostaria de realizar? O que pode ser feito então contra essa proibição e regulamentação estabelecida; temos então três opções: quebrar a regulamentação (lei) para nos deleitarmos em nossos prazeres sem nos preocuparmos com futuras conseqüências, relativizar a atualidade

dessa lei e considerá-la como caduca, ou mais suavemente, afirmar “que cumprimos de uma outra forma” e não daquela maneira explicitamente ali representada.

Se isso ocorre em casos comuns da jurisprudência civil, quanto mais ocorrerá com proposições bíblicas.

Deus nos deu dez mandamentos (Ex 20), nos ordenou para que viéssemos observá-los com perpetuidade, mas o homem não os aceita. O homem não cumpre esses mandamentos, por que sua natureza odeia o doador da lei, despreza os pontos ali exigidos e ignora as advertências das conseqüências à quebra desses preceitos.

Mas qual a relação entre lei e graça? O que é lei, o que é graça? E o cristão está relacionado com qual de ambas?

Esse é um tema muito abordado em toda a historia da igreja cristã. A tensão entre esses dois temas se dá pela transição da antiga aliança para a nova. As respostas nem sempre são satisfatórias, mas as mais prevalecentes estão em uso em nossos púlpitos.

O neonomismo por séculos enraizou-se no pensamento teológico de alguns grupos e durante a igreja primitiva representados pelos judaizantes, ganhou larga aceitação.

De acordo com esse ponto de vista, a lei(não as obras) tem uma função importantíssima de auxilio a graça. Geralmente nos círculos neonomistas há uma ênfase exagerada da lei em detrimento da graça, na práxis do neonomismo vemos muitas atitudes legalistas no esforço de cumprir a lei, como moeda de se obter a benevolência e a não-punição divina. Como é de se esperar existem exageros até mesmo na alimentação* de muitos neonomistas.

O segundo grupo que observamos com demasiada freqüência no seio da igreja, são aqueles que a teologia chama de antinomistas.

O antinomismo é tão velho na historia igreja quanto o neonomismo, foi combatido com muita veemência por Paulo, João, Judas e Pedro. Foi(e continua sendo) uma heresia bastante perniciosa, isso pelo fato de considerarem a graça como substituta da lei, interpretam sempre a lei como algo prejudicial ou no mínimo, que “foi bom” até certo período na historia da revelação, mas que agora, não existe mais nenhuma relação entre o cristão e a lei. Há dois tipos de antinomia: a doutrinal e a pratica., embora seja necessário afirmar que nem todo antinomista doutrinário é um antinomista prático, é correto considerar (e a historia confirma) que todo (exceto aqueles que consideram as revelações proposicionais,a bíblia, algo fútil) antinomista pratico é um antinomista doutrinário e isso ocorre por que sempre procuram argumentos antinomianos** para fundamentar seus atos espúrios.

O QUE A BIBLIA DIZ?

È importante considerarmos o assunto sobre a lei como algo que merece ser discutido aqui exaustivamente, mas seremos apenas objetivos e clarificados nesse ponto, e em outra oportunidade nos aprofundaremos detalhadamente.

No antigo testamento aprouve o Senhor entregar aos israelitas uma norma para sua conduta diária para com os homens e com Deus. Essa era a lei divina. Perfeita, santa e justa

(Sl 19.7). O povo judeu recebeu a lei em três maneiras distintas: Lei civil, cerimonial e moral. Esse era o regulamento para a perfeita obediência. Em caso contrario, seria maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo (Dt 27.26).

As leis civis tinham o propósito de estabelecer a ordem natural da sociedade judaica. Como um estado teocrático, Israel recebeu diretamente de Deus o seu código civil e penal. Que bela legislação, e quão majestoso Legislador!

Em Ex 21, observamos uma serie de mandamentos para trazer ordem a sociedade

Veterotestamentária, as sanções à quebra da lei incluíam: pena capital ao infrator (v.12; 22.18-20; ) e ressarcimento em relação a as suas propriedades (Cap. 22). Essa lei foi abolida, já que sua característica era estritamente local e temporal.

As leis cerimoniais eram a parte vital do culto judaico a Deus. Nessa lei a observância era exigida como uma forma de separá-los daqueles demais povos pagãos. Era uma identidade peculiar daquela nação em comparação as outras. O novo testamento mostra que nessa lei existia um elemento apontando para o messias que havia de vir, sombras e tipos que brevemente seriam abolidos (Cl 2.16,17). Nesse aspecto, a lei cerimonial era praticada através de festas especificas, sacrifícios, circuncisão, abstinência de alimentos impuros, páscoa e muitos outros preceitos detalhados. Essa lei é aquela que o NT descreve algumas vezes como; leis dos mandamentos, que consistiam em ordenanças, essa sim, é a lei que foi desfeita e abolida (Ef 2.11,15), conforme lemos em toda carta de Gálatas e Romanos. O testemunho firme do novo testamento confirma que o cristão não está debaixo da lei cerimonial, não está debaixo da lei no sentido de que a maldição da lei não o atinge mais, conforme todo o contexto no capitulo 6 de Romanos, incluindo o próprio versículo 14.

Não há mais condenação para os eleitos de Deus. É Deus quem os justifica!

A lei moral

Sempre presenciamos uma negligencia completa em relação a lei de Deus. Os cristãos contemporâneos desejam saber “muitas coisas”, menos os preceitos sagrados. A imprudência com a vida cristã em muitos evangélicos dos nossos dias é nauseante. Com muita dificuldade e insegurança, um cristão veterano hoje em dia pode falar prontamente os dez mandamentos, e se o interrogarmos ou pedirmos o significado de cada um desses mandamentos, sua resposta será: “estamos no tempo da graça, não estamos na época da lei, não somos adventistas do sétimo dia, para então guardarmos a lei, estamos livre da lei”.

Esse é o engano mais sutil e popular que envenena nossas igrejas hoje em dia. A lei é a regra que Deus impôs ao homem. Vivermos sem essa regra, significa que viveremos des-regradamente. Não estarmos sob uma norma ética (lei) instituída por Deus, significa que somos noéticos, não estarmos mais sobre a lei divina, implica ilegalidade, e não em graça(como muitos pensam). Dizermos que estamos sob a graça e não sentirmos prazer na lei de Deus; atrai juízo, condenação e desprezo divino.

A lei moral resumidamente compreendida nos dez mandamentos, é o padrão moral, ético e espiritual que Deus exige do homem. E isso observamos com muita clareza no Antigo Testamento. Mas e o Novo Testamento, o que diz sobre essas coisas? Enfocaremos o que diz o N.T sobre a lei, já que esse é o ponto menos observado pelos lideres modernos.

Os fariseus eram a referencia religiosa de hipocrisia e insinceridade. Chamar alguém de fariseu hoje em dia, é bem diferente do que se esperava a dois mil anos atrás. Guardavam a o ato exterior e a aparência da lei, mas a sua essência era esquecida e negligenciada. Eis o motivo por que muitos hoje temem falar sobre a lei, possuem medo de se parecerem com esses “mestres”, e acabam adotando um posicionamento antibiblico em relação a lei, sem ao menos examinar profundamente essas questões, se tornam irracionais(teologicamente falando) naquilo que professam crer.

Paulo diz que a lei é boa (Rm 7.16), mas em outros momentos observamos ele dizendo que a lei traz a morte. Mas a lei é boa ou não? Sim a lei é boa, mas somente para os crentes em cristo; para os incrédulos ela é como um chicote que açoita suas consciências cauterizadas.

Quem pode dizer que a lei é boa senão o regenerado? Somente um santo pode dizer que tenho prazer nos teus mandamentos; eu os amo (Sl 119. 47 NVI).

È dito com muita freqüência, que, Cristo aboliu a lei. Eu responderia que sim, se, não tivesse uma bíblia na mão. Ele mesmo diz: Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Para respaldar o falso ensino de uma lei moral abolida por Cristo, alega-se então três opções (des-CULPAS, sofismas) diante desse texto, vejamos o que dizem:

1º Há um problema no manuscrito tal... e assim o blasfemo(da alta critica geralmente) prossegue sua argumentação.

2º Jesus disse que cumpriu, de uma vez por todas, cumpriu a lei para que o crente não precisasse mais cumprir.

3º Jesus “santamente” mentiu (mas claramente: “pecou por uma boa causa”), pois ele uma vez quebrou o sábado, e não apedrejou, noutra vez, aquela mulher flagrada em adultério cuja a lei ordenara para que assim fizesse.

Sinto-me até enojado em digitar tal argumento profano. A ignorância não nos isenta dos nossos pecados em nossas pronunciações descabidas e descuidadas, o fato de alguém ser um péssimo interprete das escrituras, não o desculpará de suas distorções no dia do Juízo.

Se a bíblia diz que Cristo foi simplesmente um cumpridor da lei, então Ele apenas cumpriu a lei. Somente, simplesmente, claramente, é isso o que a bíblia diz! Seria desnecessário( e contraditório), Jesus dizer que o Seu cumprir da lei, é igual a abolição da lei. Ele mesmo explica que; não vim abolir a lei (Mt 5.17 NVI). Se o seu cumprir não era igual a acabar com a lei (NTLH), então a lei moral, conforme mostra todo o contexto do sermão do monte; sobre adultério, assassinato, tomar o nome de Deus em vão através de falsos juramentos, tudo isso ainda é requisito para regular e julgar, não somente a vida de irregenerados, mas de cristãos também.

Quando Jesus resumiu a lei moral em dois mandamentos, Ele não estava abolindo a coisa ali resumida por uma versão mais fácil ou mais branda de cumprir. Ele resumiu em dois os dez mandamentos, e não os aboliu. Amar a Deus sobre todas as coisas, equivale a guardar do primeiro ao quarto mandamento(nosso dever com Deus, nosso relacionamento vertical); amar o próximo como a ti mesmo, é o mesmo que observar os outros seis mandamentos(nosso dever com o próximo, nosso relacinamento horizontal). Os apóstolos sempre faziam referencia aos cristãos, tomando como ponto de partida a lei moral(Tg 2.9;

1 Jo 2.3) ligando e estabelecendo a obrigatoriedade à lei, a todos os crentes. Não adianta sofismar, dizendo que o Espírito “dirigirá espontaneamente” aqueles que, já estando na “graça” a não precisarem se esmerar na lei, e mesmo assim serão santos, mesmo negligenciando a lei que é santa, justa e boa (como dizia o apostolo Paulo) como padrão de moralidade em suas vidas. Não consigo conceber, alguem que é santanto e ao mesmo tempo despreza a lei santa!

O Espírito Santo mostra aos cristãos, verdades proposicionais e verificáveis que precisam ser obedecidas, não subjetivamente, como faziam(e ainda fazem) alguns antinomistas gnosticos, místicos medievais e semi-liberais, mas, objetivamente, como os homens mais piedosos da historia, e entre esses, aqueles que mais desenvolveram na pratica ( e no papel) a doutrina da graça.

È um absurdo, mas é verdade. Se um cristão não está debaixo da lei, então ele não peca mais; por que o pecado é transgressão da lei.

É uma tragédia vermos, a santa carta aos Gálatas ser tão cuidadosamente deturpada, as advertências de Tiago aos cristãos, utilizando-se da lei, ser tão popularmente esquecida, e cair no desprezo. E tantos que se dizem piedosos nesse estranho caminho da graça, cospem na verdadeira graça e anulam as palavras de João:

"Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade." (I João 2 : 4)

Ninguém se esquiva daquilo que Deus estabeleceu. Para os cristãos ela é um padrão de um viver santo; para os incrédulos, um padrão amargo e intransigente de conduta expirada. Descansarei no que dizia as antigas veredas a esse respeito:

Aquele que prega a cruz de verdade e com boa-fé não se opõe à pregação da lei.

(W. G. T. Shedd)

A lei remete-nos ao evangelho, para que possamos ser justificados; o evangelho remete-nos à lei novamente para que sejamos informados de nossos deveres, estando justificados.

(Samuel Bolton)

Quando a lei de Deus é escrita em nosso coração, nossos deveres são nossos prazeres.

(Matthew Henry)

Havia graça no reinado da lei e há lei no reinado da graça.

(Charles Caldwell Ryrie)

A agulha da lei precisa vir antes da linha do evangelho.

(C. H. Spurgeon)

* Uma boa parte dessa escola de pensamento ainda realiza dietas alimentares e exercem a guarda do shabath (confundindo assim a continuidade e descontinuidade da lei, a revelação progressiva e a mudança de tal dia que outrora era estritamente cerimonial) vivendo de uma forma estritamente judaica, embora se considerem cristãos, é o caso dos adventistas do sétimo dia, alguns batistas do sétimo e de muitos judeus messiânicos.

** Algo que é dado exagerada ênfase na agenda antinomiana é o amor e a graça(e todos os versículos que acompanham esse tema), envolvem-se em campanhas a favor do aborto, causas do direito civil e matrimonial de gays e lésbicas, se manifestam contra a pena capital e tudo aquilo que venha a ferir sua agenda humanista. Falam com bastante freqüência, de se receber sem nenhuma confrontação de arrependimento, grupos homossexuais e tantos outros que vivem de forma desregrada(Alguns antinomistas mais influentes não se posicionam de forma rigorosa e veemente contra esses movimentos, “aqui e acolá” fazem pronunciamentos que favorece a uns e as vezes a outros, um evangelho que nem fere com o arrependimento, nem cura com o remédio de uma vida santa). Se esquecem daquelas passagens que Jesus dizia sempre depois do perdão: Vai e não peques mais.

1. A pena de morte foi incluída na lei civil, mas os seu caráter retribuitivo não findou juntamente com toda lei judicial. A pena capital foi estabelecida antes mesmo de ser trazida a Moisés no Livro de Êxodo(cf .Gn 9.6). O principio da pena capital estava intrinsecamente gravado no coração de Caim (Gn.5.14), Deus(o legislador maior, Senhor da vida e da morte) o absorveu pois ainda não havia instituído as leis judiciais propicias para a execução legal.

A lei civil foi expirada, mas ainda hoje, permanece esse principio de ressarcimento aos danos materiais cometidos contra o próximo e o seu caráter retribuitivo (não vingança pessoal) a vida humana, em que no caso, o estado é quem julgará e efetuará legalmente a referida sentença, tal como acontecia em Israel. Não era algo simplesmente restrito a lei civil, era, e é, algo atrelado diretamente do caráter de Deus. Um principio de valor moral e não apenas local e/ou temporário. É completamente errônea a idéia humanista, de que a pena de morte não pode ser mais executada. Ao contrario do que muitos pensam, a abolição da pena de morte é uma desvalorização da vida. Como acertadamente diz R.C Sproul:

A pena de morte é instituída muito cedo no Antigo Testamento – antes de Moises, antes do Sinai, antes dos Dez Mandamentos, desde os dias de Noé, quando Deus disse: “Quem derramar sangue de homem, pelo homem terá o seu sangue derramado”. Isso não é uma predição. Na estrutura da linguagem há um imperativo: é uma ordem. E a razão é dada: porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gn 9.6). Em outras palavras, a Biblia diz que a vida humana é tão sagrada, tão preciosa, tão santa que, se com premeditação você destrói injustificadamente outro ser humano, você, por isso mesmo, perde seu direito à vida. Deus não apenas permite a execução de assassinos, ele a ordena. (Boa Pergunta, R. C. Sproul, Cultura Cristã, pág 299-300)

Evandro C. S. Junior, 7 de Setembro de 2010.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ONDE ESTÁ O EVANGELHO?




Onde está o Evangelho? Tenho visto cultos em várias igrejas e conversado com vários daqueles que se denominam “crentes”, mas não tenho conseguido enxergar, com raras exceções, o genuíno Evangelho de Cristo nestes lugares nem nestas pessoas.

Tenho ouvido pregações interessantes, muitas delas super bem-humoradas, que levantam meu astral, me fazem sentir extremamente importante e, a cerca dos meus planos e projetos, insistem que se eu me esforçar alcançarei meus objetivos nesta vida; basta seguir oito ou dez passos para sucesso garantido. Mas onde foi parar aquela antiga preocupação com uma vida além desta? As pessoas utilizam um linguajar diferente; um “evangeliquês” (como diz João Alexandre1), que inclui palavras do tipo: “varão”, “vaso”, “benção”, “paz do Senhor”, “servo (a)”, “mistério”... Mas cadê aquele velho papo sobre pecado, arrependimento, santificação, céu e inferno?

“Inferno??? Pega mal; espanta!”, alguém vai dizer. Está fora de moda pregar sobre estas verdades bíblicas. Dirão ainda: “não importa se Jesus foi o maior expositor da doutrina do inferno, talvez isso funcionasse na época dEle, mas não funciona na nossa; as igrejas secarão se pregarmos sobre isso. O importante hoje são os “resultados” e isso nós temos obtido, é só olhar as igrejas lotadas; de tendas à santuários (isso para não falar do ainda em construção “Templo de Salomão”) o Brasil está cheio!”.

Talvez eu seja um pessimista. Talvez o problema esteja em mim, pois, por mais que eu me esforce, eu não consigo enxergar esses tais “resultados”. O que querem que eu entenda por “resultados”? Templos lotados? Baladas gospel? Pessoas em êxtase, com lágrimas nos olhos e mãos levantas, sendo conduzidas pela música, dizendo “Senhor eu te quero”, “preciso de Ti”, “estou apaixonado”, “abraça-me”, “estou enfermo de amor”...? Estes são os “resultados”? Se são estes, só me resta lamentar e chorar, pois se tudo que sobrou se resume a isto, o que se pode concluir é que Deus não está mais na igreja! Jesus declara: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3.20 – NVI). Estas palavras foram dirigidas a igreja de Laodicéia, mas poderiam muito bem ser dirigidas a igreja evangélica no Brasil. Nós estamos cultuando um Cristo que está do lado de fora da igreja, batendo na porta e pedindo para participar do nosso culto, mas nós não O escutamos; o show aqui dentro é muito bom e a música muito alta.

Os lobos invadiram o aprisco; clamem desesperadamente, ovelhas, pelo bom Pastor ou não haverá salvação. Precisamos nos voltar mais uma vez para as Sagradas Escrituras e ouvir mais uma vez o brado dos reformadores “sola Scriptura!!!” (somente a Escritura!!!), a fim de recuperarmos as velhas doutrinas contidas no Evangelho do Senhor. Numa época em que tantos surgem auto intitulando-se “pastores (as2)”, “bispos (ou bispas3)”, “apóstolos (as)” e até “patriarcas4”, são as velhas doutrinas de Cristo e dos Apóstolos (os quais os nomes podemos encontrar nas páginas do Novo Testamento), e não as pós-modernas invencionices humanas, que nos manterão à salvo das bocas destes lobos vorazes.

Basta!!! Não podemos mais ficar calados diante deste cristianismo superficial, onde o crente é definido como alguém que levantou a mão durante algum apelo, foi batizado, tem seu nome no hall de membros da igreja e dá dez por cento daquilo que ganha. A igreja evangélica está soterrada sob o entulho do mundanismo. Aliás, a igreja tem se tornado uma instituição desacreditada neste país. “Quando psicólogos seculares, como Karl Menninger, perguntam a igreja: ‘O que aconteceu com o pecado?’, pensamos que é uma boa hora fazer algumas perguntas duras”5. O que acontecerá se insistirmos em manter incrédulos no hall de membros de nossas congregações, dando tudo o que eles procuram e diluindo o Evangelho para não chocá-los? Se nós continuarmos com este modelo evangelístico pragmático que temos adotado hoje, que visa trazer pessoas a qualquer custo para dentro das igrejas, e assim sacrificam a doutrina em lugar do entretenimento, dentro de dez anos não haverá mais igreja no Brasil6, pois, à exemplo da Europa, a igreja estará tão indissociavelmente ligada ao “mundo”, que não será mais possível fazer qualquer distinção. Ao ouvirem a pregação de Cristo, “muitos dos seus discípulos disseram: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?...Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo” (Jo 6.60,66). No dia em que expurgarmos da igreja todo trapo de trivialidade e passatempo, as pessoas começarão a deixá-la, e é possível que venhamos a ser reduzidos (numericamente) de maneira drástica, a ponto de sermos considerados um povo minúsculo, mas lembremos que Deus, vez por outra, se agrada em chamar pequeninos e por meio deles executar propósitos grandiosos. Alegre-se igreja, pois se isto acontecer, não há de ser para nossa tristeza e sim para nosso júbilo, pois saberemos que Deus está purificando sua noiva para as bodas do Cordeiro. Recordemos mais uma vez as palavras de João: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos” (1 Jo 2.19).Como Jesus declarou: “Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem” (Mt 24.37-40).

Que Deus nos ajude, levantando pessoas que, como Noé em meio a uma geração rebelde, preguem fielmente a Palavra de Deus, “quer ouçam, quer deixem de ouvir” (Ez 2.5). Pessoas que ergam o estandarte do Evangelho e, pelo Espírito de Deus, tragam quebrantamento e profunda convicção de pecado a esta nação. Que o povo brasileiro saiba o que é novo nascimento e, à semelhança dos grandes avivamentos na história da igreja7, seja tomado por uma urgente necessidade de busca por santidade, leitura e reflexão bíblica, seguida de oração e comprometimento com o “ide” do Senhor (Mt 28.19). Que a Escritura possa ser o grande juiz ao qual recorremos em todas as coisas, para que assim essa sociedade seja impactada e o Evangelho brilhe intensamente. Precisamos ver o Evangelho mais uma vez irradiando dos nossos púlpitos, para não sermos pegos de surpresa pelo Dilúvio, enquanto a porta da arca ainda está aberta e o Filho do homem não torna.


Sola Escriptura!


Nelson Ávila, 19 de agosto de 2010


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1 “... esse ‘evangeliquês’ universal...”. Trecho da música “É proibido pensar” (álbum de mesmo nome) de João Alexandre.

2 Não encontramos o feminino de “pastor” nas Sagradas Escrituras, nem mesmo o de “presbítero”.

3 “Bispa” é um assassinato a língua portuguesa, desde que o feminino de “bispo” é “episcopisa”.

4 Renê de Araújo Terra Nova, que já era “paipóstolo” (sendo sua esposa “mãepóstola”), foi reconhecido Patriarca da Visão Celular no Modelo dos Doze, durante o 13º Congresso Internacional da Visão Celular no Modelo dos Doze em Manaus, 19 de junho de 2010, 49º aniversário do apóstolo. Confira mais detalhas no blog: http://www.reneterranova.com.br/blog/?p=3063 , assesso em 16 de Agosto de 2010, as 20:11 hrs.

5 Citado por Michael Scott Horton (o editor) em “Religião de Poder” (BOICE, J. M., PACKER, J. I., SPROUL, R. C., MCGRATH, Alister e outros, Religião de Poder, editora Cultura Cristã, São Paulo – SP, 1998, p.16.).

6 Embora falando desta maneira, sei que Deus sempre preservará os Seus, mas quero que matenhamos um senso de urgência para com o reestabelecimento ético, moral e bíblico do povo de Deus.

7 Como os que aconteceram através das vidas Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564), John Knox (1514-1572), Jonathan Edwards (1703-1758), George Whitefield (1714-1770) e John Wesley (1703-1791).


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Paul Washer - Todos os homens nascem maus

Uma pregação que fere com arrependimento e cura com a salvação...Ah, quantas saudades desse evangelho!

Evandro C. S. Junior, 11 de Agosto de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

A SEGURANÇA ETERNA E A RESPONSABILIDADE HUMANA


“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”.

(Jo 10.27,28).

Esta é talvez a maior promessa em toda a Escritura; É aqui onde o aflito encontra alegria e paz; onde o espírito vacilante encontra apoio para firmar os pés e se agarra para caminhar com segurança. Estas são as “asas” (Sl 91.4) do Senhor onde podemos achar refúgio certo; são os “pastos verdejantes” e as “águas de descanso” (Sl 23.2) onde repousamos tranqüilamente enquanto a alma se refrigera. A possibilidade do “vale da sombra da morte” (Sl 23.4) não nos põe medo, pois o Senhor está conosco, quem nos arrebatará da Sua mão?

“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?” (Rm 8.35). Quem (mais uma vez indago) terá tamanho poder de arrebatar-nos da mão do Senhor?

Oh, alegrem-se todos os crentes! Que a terra estremeça ao som das nossas vozes e todas as ovelhas do Senhor entoem com júbilo a velha canção: “Que segurança tenho em Jesus!” 1, pois Cristo declarou: “ninguém as arrebatará da minha mão”, e, como o apóstolo Paulo, podemos dizer confiantes: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38,39).

Alguém poderia perguntar: “E o perigo da apostasia, do qual a Bíblia fala em tantos lugares? Isto não nos poderia separar do amor de Deus ou arrebatar-nos de Sua mão?”. Deus nos livre de tal pensamento! O apóstolo Paulo deixa claro que nada poderá separar aqueles que Deus escolheu do destino eterno preparado para eles, pois “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; a aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.29,30). Deus glorificará aos que predestinou!

Alguns têm colocado em descrédito esta promessa do Senhor (“...ninguém as arrebatará da minha mão”), como no caso dos Remonstrantes 2, que ensinavam que “Os que escolheram crer em Cristo e foram perdoados e salvos, eventualmente podem tomar uma decisão contrária, voltar atrás e cair da graça salvadora, e se perder para sempre” 3. Este não é o verdadeiro ensino das Escrituras. Os que renegam a Cristo apostatando da fé jamais foram salvos! O apóstolo João, falando dos apóstatas, nos esclarece: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1 Jo 2.19). Vejamos também o texto de Hebreus 6.4-6, que tantas vezes tem sido mal interpretado e utilizado para defender a idéia de “perca de salvação” por falar sobre a apostasia de pessoas que foram “iluminadas, e provaram do dom celestial, e se tornaram participantes, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram [...] é impossível outra vez renová-los para arrependimento...” (Hb 6.4-6). Este texto, dentro de seu devido contexto, não fala sobre crentes genuínos nem sobre a possibilidade de tal acontecimento na vida destes. Na verdade, o texto fala sobre falsos convertidos e esclarece este ponto no versículo 9: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira” (Hb 6.9). Parafraseando, poderíamos colocar as coisas nestes termos: “Embora estejamos falando desta maneira, sobre pessoas que pareciam crentes, estamos convictos da salvação de vocês amados, pois sois totalmente diferentes daqueles, e esperamos que este alerta sirva como incentivo para que confirmeis ainda mais a vossa eleição, perseverando e dando bons frutos até o fim”. Lembremos que cristo nos adverte quanto a isto na parábola do semeador (Lc 8.4-15), onde lemos sobre quatro sementes, sendo a primeira, os que rejeitaram a palavra; a segunda e a terceira, os falsos convertidos , os quais “crêem apenas por algum tempo” (Lc 8.13), para depois se desviarem, seja pela “provação” ou pelos “deleites da vida” (Lc 8.14). Somente a última retém a palavra e frutifica com “perseverança” (Lc 8.15).

Um outro erro que deturpa a doutrina da “Segurança Eterna dos Santos” e violenta a santa doutrina da “Eleição”, levando tudo para o extremo oposto, é uma má compreensão ou distorção da doutrina da “Predestinação”. Paulo deixa claro que Deus “nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo [...] e em amor, nos predestinou para ele...” (Ef 1.4,5), com isso alguns argumentam: “Se Deus me predestinou para Ele, não importa o que eu faça, no final estarei com Ele...”, desta maneira, buscam na predestinação um pretexto para seguirem os conselhos de seus corações libertinos; tais homens crêem na promessa do Senhor, mas não sabem quão distantes estão de Sua mão. É verdade que aqueles que Deus predestinou, com certeza serão glorificados (Rm 8.29,30), mas o versículo 4 do capítulo 1 de Efésios não nos diz que Deus “nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo” para vivermos na prática do pecado, antes, este versículo nos mostra o propósito de nossa eleição e predestinação, ou seja, fomos eleitos “para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4), predestinados “para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Somos justificados somente pela fé e isso é verdade, mas as obras acompanham a fé na vida dos santos, pois como diz Tiago “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2.17). As obras são, por assim dizer, os frutos dos que receberam o dom da fé, pois, lembremos mais uma vez da parábola do semeador: o que acontece com a semente que “caiu na boa terra”? “Estes frutificam com perseverança” (Lc 8.15). Somos chamados para dar frutos e perseverar! Não podemos esquecer que Deus nos considera totalmente responsáveis por nossas ações e certamente pereceremos se assim não procedermos. Como diz Louis Berkhof: “Aqueles que se perdem, só poderão culpar a si mesmos” 4.

C. H. Spurgeon, falando sobre a Graça Soberana e a Responsabilidade do Homem, diz: “Que Deus predestina e que o homem é responsável são duas coisas que poucos conseguem enxergar. Estas verdades são tidas como incongruentes e contraditórias; contudo não são. É defeito do nosso fraco julgamento... é minha tontice que me leva a imaginar que duas verdades podem, alguma vez, contradizer-se uma a outra” 5. “Creio na predestinação, sim, até em cada jota e em cada til. Creio que o rumo seguido por um simples grão de areia no vento de março é ordenado e estabelecido por um decreto que não pode ser violado; que cada palavra e pensamento do homem, cada movimento de asas de um pardal, cada vôo de um inseto... que tudo é de fato pré-conhecido e preordenado. Mas creio igualmente na livre agência 6 do homem, que o homem age como quer, especialmente nas operações morais – escolhendo o mal com uma vontade não induzida por coisa alguma que venha de Deus, induzida unicamente por sua própria depravação de coração e pela perversidade de seus hábitos; também escolhendo o certo com perfeita liberdade, embora secretamente guiado pelo Espírito Santo... Creio que o homem é tão responsável como se não houvesse destino algum... Onde estas duas verdades se encontram não sei, nem quero saber. Elas não me atrapalham, uma vez que deixei de lado o meu entendimento para crer nelas duas” 7.

Lembremos da promessa do Senhor com confiança inabalável, certos de que seguramente há um céu preparado para nós, no qual ninguém nos poderá impedir a entrada. Estamos seguros na mão do Salvador, de onde ninguém nos poderá arrebatar. Nossa confiança não vem de nossas próprias débeis forças, esperando que teríamos a capacidade de manter-nos agarrados à mão do Mestre, mas sim na força do Senhor em manter-nos seguros em Sua mão; nos regozijamos em saber que “aquele que começou boa obra [...] há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Não nos esqueçamos porém, que somos chamados para perseverar e dar frutos, portanto, trabalhemos com afinco na seara do Senhor. Jamais encontraremos nas doutrinas da “Segurança Eterna” ou da “Predestinação” apoio para permanecermos inertes ou na prática do pecado. Deus salva os Seus (levando-os a perseverarem, seguros em Sua mão) e responsabiliza a todos os demais por sua incredulidade e pecaminosidade.

Graças damos a Deus por sua infinita misericórdia em nos conceder gratuitamente a salvação em Cristo, e rogamos a Ele que nos conceda um espírito perseverante, que nos impulsione a crescer em santidade dia após dia, seguindo todo o conselho da Sua santa Palavra, para que “no devido tempo” (Sl 1.3) possamos dar o nosso fruto.


Soli Deo Gloria



Nelson Ávila, 6 de julho de 2010.

_____________________________

1 Segurança e Alegria (F. J. Crosby – G. B. Mind). Hino de nº 144 do Hinário Novo Cântico da Igreja Presbiteriana do Brasil.


2 Remonstrantes: Seguidores do professor holandês Jacó Armínio (1560-1609) que, baseando-se na interpretação de Armínio (“arminiana”) das Escrituras, formularam uma compreensão do plano da salvação que consistia em 5 pontos, os quais foram refutados no Sínodo de Dort (1618-1619), convocado pelos Estados Gerais da Holanda. Acerca do Sínodo de Dort, Louis Berkhof declara: “... foi realmente uma augusta assembléia, constituída por 84 membros e 18 delegados. Desses quarenta e oito eram holandeses, e os demais estrangeiros que representavam a Inglaterra, a Escócia, o Palatinado, Hesse, Nassau, Bremem, Endem e a Suíça” (BERKHOF, Louis, A História das Doutrinas Cristãs, São Paulo, Editora PES, 1992 [Edição original em 1937], pg. 137).


3 LOPES, Augustus Nicodemus, Teologia Relacional, São Paulo, Editora PES, 2008, pg. 15. [Este é o último dos 5 pontos arminianos. Neste livro, o Pr. Augustus Nicodemus Lopes nos apresenta uma excelente e breve refutação à Teologia Relacional, que se declara uma “nova” visão de Deus, mas que na verdade, como o próprio autor afirma, não passa de uma “apresentação requentada de várias idéias antigas, conhecidas da Igreja Cristã, algumas delas inclusive condenadas como heréticas” (pg. 11). O Pr. Nicodemus declara ainda que “a maior influência na Teologia Relacional, sem dúvida, é o arminianismo” e que “ela é um desenvolvimento lógico do arminianismo, ou ainda, o arminianismo levado às suas últimas conseqüências” (pg. 13, 14)].


4 BERKHOF, Louis, A História das Doutrinas Cristãs, São Paulo, Editora PES, 1992 [Edição original em 1937], pg. 138.


5 Púlpito da Rua do Novo Parque (New Park Street Pulpit) (Londres: Passmore and Alabaster), vol. 4, p. 337. Sermões e volumes anuais de Spurgeon referentes a 1855-1860. Citado por Iain H. Murray em Spurgeon Versus Hipercalvinismo, São Paulo, editora PES, 2006, pg. 99.


6 Como diz Iain Murray (Spurgeon Versus Hipercalvinismo, São Paulo, editora PES, 2006, pg. 97): “A terminologia aqui é importante. Não se confunda livre agência com “livre-arbítrio”. Desde a Queda, os homens não perderam a sua responsabilidade, mas perderam a sua capacidade, a vontade, de obedecer a Deus. Por conseguinte, Spurgeon podia dizer: “Eu temo, mais do que qualquer coisa, que você seja deixado entregue a sua vontade livre”, ao seu livre-arbítrio”. Em A Verdade Para Todos os Tempos (São Paul, Editora PES, 2008, pg 19), João Calvino Escreve sobre o “livre-arbítrio”:

“As Escrituras asseveram muitas vezes que o homem é escravo do pecado. O que isso significa é que sua mente acha-se tão longe da justiça de Deus que só pensa, deseja e empreende o que é mau, perverso, iníquo e sujo; pois o coração, cheio do veneno do pecado, não pode emitir nada senão frutos do pecado.

Todavia, não devemos pensar que existe uma imperiosa necessidade impelindo o homem a pecar. Ele peca com pleno acordo da sua vontade, e ele o faz avidamente, seguindo suas próprias inclinações.

A corrupção do seu coração indica que o homem tem forte e persistente ódio a toda a justiça de Deus. Acresce que ele se vota a toda espécie de mal. Por causa disso se diz que ele não tem livre poder de escolha entre o bem e o mal – não tem o chamado livre-arbítrio”.


7 Púlpito do Tabernáculo Metropolitano (Metropolitan Tabernacle Pulpit) (Londres: Passmore and Alabaster), vol. 15, p. 458. Esta série sucedeu aos seis volumes do Púlpito da Rua do Novo Parque. O primeiro volume do PTM, com sermões referentes ao ano de 1861, recebeu por isso o número 7. As publicações anuais continuaram até o ano de 1917. Citado por Iain H. Murray em Spurgeon Versus Hipercalvinismo, São Paulo, editora PES, 2006, pg. 100.

sábado, 26 de junho de 2010

E os pagãos?




Constantemente ouvimos pessoas em diversas religiões (e denominações evangélicas também) dizerem: Jesus não condenaria a perdição alguém que nunca “escutou o evangelho”, Deus sempre dá uma “chance para todos os homens aceitá-Lo” ou, seria injustiça condenar alguém que “não teve uma oportunidade”. Mas todas essas frases no seu âmago trazem um senso elevado de humanismo secular, algo que sempre buscará os interesses do próprio homem e não a justiça elevada e indizível de Deus, pois o que geralmente se tem como popular hoje não é verdadeiro, bíblico e teocêntrico.

Mas e aqueles que nunca ouviram, perecerão? Sobre esse assunto existem algumas correntes teológicas que atuam com argumentos diferentes*. São pensamentos prevalecentes hoje no mundo evangélico, entre as mais populares estão elas:

O exclusivismo ou particularismo. Defende a idéia que Cristo tem que ser pregado aos povos mais distantes e deve-se crer no evangelho, do contrario perecerão. Deus salva apenas no cristianismo

(solus cristus), através da pregação da palavra (sola scriptura).

O inclusivismo. Alguém pode ser salvo através de Cristo, mas não unicamente pelo seu evangelho. A revelação geral, anjos, sonhos, uma experiência mística profunda, se encarregarão de fazer tal obra missionária. Deus salva em (não através de) outras religiões.

O pluralismo. As religiões trazem algo essencial que precisa ser valorizado, pois é a essa essência comum entre todas que as tornam um canal da mensagem salvadora em si. Esse pensamento expressa bem a famosa frase: todos os caminhos levam a Deus.

No mundo pós-moderno a dificuldade em se defender a singularidade de Cristo e do cristianismo é cada vez mais intensa. Os discursos mais comuns favorecem a flexibilidade da mensagem cristã e a suavização do seu ofensivo testemunho sobre conceitos humanos. O pluralismo foi implantado sorrateiramente no meio da igreja. E hoje é taxado de arrogante, todo aquele que professa a salvação exclusivamente em Cristo.

O pluralismo é o retrato do homem moderno com tudo o que lhe agrada. O fato é que a diversidade da religião tem que ser adaptada de alguma forma a realidade do homem. Existem grandiosas promessas de bem estar no pensamento pluralista, pois dizer que o cristão é o único agente da mensagem salvadora é uma afronta para a liberdade de opinião e uma agressão à respeitabilidade de outras culturas, povos e tradições milenares. Cada religião tem algo em comum. Se forem fiéis e sinceras ao seu sistema filosófico sobre o ser divino, então encontrarão salvação (seja ela o que for).

O budista, o mulçumano, o hindu, o feiticeiro e etc estão todos corretos, há algo que os une. A diferença doutrinaria é irrelevante. O missionário pluralista tem que dialogar com o adepto do vodu, não invadindo a realidade de sua religião, não dizendo que “... há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.(Tm 2.5)", mas vendo as semelhanças e desprezando as diferenças.

Mas o que se esquece (propositalmente, acredito) é que as religiões embora tenham semelhanças (pelo menos superficialmente), não são iguais em sua mensagem central, a salvação. Alguma dessas deve estar correta, não há opções. Por exemplo: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo defendem ferrenhamente seus dogmas sobre a salvação. Embora acreditem em um só Deus, isso não as torna correta em todos os outros pontos; o judaísmo crê que Cristo não salva, o islamismo acredita que somente Alá é o Senhor e Maomé seu profeta e que para ser salvo tem que ser mulçumano seguindo os ensinamentos do alcorão, porém o cristianismo diz que: só Jesus é o caminho verdade e a vida, Ele é a porta das ovelhas e todos os outros são ladrões e salteadores e em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.

. Como as três podem ser instrumentos de salvação, se elas defendem conceitos totalmente excludentes? Alguma dessas tem que estar dizendo a verdade. Isso sem falar que as duas primeiras abominam a trindade. Se não há consenso nem entre religiões monoteístas, quanto mais nas que são politeístas.

Há aqueles que desejam ainda defender a singularidade de Cristo, a superioridade do cristianismo e crêem na revelação geral e especial de Deus aos homens. Contudo repensam seus ideais sobre a transmissão desse cristianismo, a ponto de redefinirem os preceitos do evangelho (o “ide”, por exemplo), para serem mais “flexíveis” com a realidade do mundo moderno. Esse é o caso do inclusivismo. Atestam como argumento, que como algumas pessoas de religiões pagãs possuem algum tipo de “comportamento cristão” às vezes, então existe ali uma fé implícita. De uma forma misteriosa, houve alguma espécie de evangelização desconhecida ali. E o missionário trabalha para tornar aquela fé em algo explicito, mais visível e mais cristianizado. Alguns observam pessoas de caráter exemplar como Gandhi, Francisco de Assis, Madre Tereza de Calcutá e etc, para deduzir que a salvação exclui (ou pelo menos em parte) a obediência de algumas doutrinas bíblicas.

A salvação, no pensamento do inclusivismo enfatiza mais o elemento ontológico e subjetivo em detrimento da epistemologia, não há equilíbrio de ambos os pesos na visão inclusivista. Alguém pode ter uma fé subjetiva sem um meio objetivo(a bíblia) para sustentá-la e guiá-la, ser um cristão anônimo sem saber disso, e ser um salvo de alguma forma enquanto é um idolatra(Tereza de Calcutá) ou um

animista- reencarnacionista(Gandhi), não há problemas, é evidência de fé, então excluamos o elementos morais e doutrinários que a bíblia exige. Geralmente você verá alguns desses citando exemplos de personagens da bíblia: Melquisedeque, o povo Judeu na antiga aliança(antes da Encarnação de Cristo) que eram salvos.

O que existe no pensamento exclusivista na verdade é uma boa vontade pelos que nunca ouviram o evangelho(e isso é louvável), um sentimento de compaixão mas infelizmente, sem zelo pelas realidades severas que o evangelho ordena como padrão.

Não existe tal coisa como um hindu-cristão. O inclusivismo é um pluralismo disfarçado, nota-se que grande parte de inclusivistas tornaram-se depois universalistas e por sua vez pluralistas**.

O ideal inclusivista trouxe grandes problemas para agências missionárias que “fecharam as portas”, uma diminuição considerável na quantidade de jovens se colocando ao dispor das missões, o reducionismo da importância da bíblia (revelação especial) no meio dos povos, o dialogo ecumênico mais intenso e uma estatística lamentável da diminuição do testemunho cristão contra o relativismo.

O testemunho da fé judaica no antigo testamento era completamente exclusivista (Ex 9.23;15.11;Dt 6.4-9;Sl 2.10-12), o Senhor era para eles o incomparável, o único Senhor e todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas no mundo de hoje não importa a quem se invocar (o importante é que se invoquem a alguém), defender que Ele é o único Salvador e que sua palavra é o meio exclusivo para consumação desse fim (salvação), se tornou em motivo de indignação e discórdia para muitos. A bíblia nos diz que um gentio salvo no A.T tinha que ter as credenciais do mesmo, obedecer os mandamentos (uma revelação especial,especifica e objetiva), ser circuncidado e por aí vai(coisas que Deus desobrigadamente, só entregou ao povo que ele desejou Sl 147.19,20; Dt 7.6,7; 10.15; Am 3.2) contudo não se considerava (na visão bíblica-judaica), um gentio fora da comunidade da aliança como alguém salvo.

A verdade então salta da própria bíblia:

Sem santidade ninguém verá o Senhor. E como ser santo? Jesus diz: Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade.(Jo 17.17), como alguém pode vir a crer em Cristo(Jo 3.16) ? Ele mesmo responde: E rogo não somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim(Jo 17.20). E isso mostra que o Deus único deseja devoção exclusiva, numa salvação exclusivamente dEle, concluindo, isso ocorrerá através de meios exclusivos que Ele mesmo estabeleceu e que não podem ter sua importância reduzida ou negligenciada.

Mas Deus não deseja a salvação de todas as pessoas (como alguns interpretam erroneamente Jo 3.16; Rm5.15-19; I Tm 2.4; Tt 2.11; II Pedro 3.9)? Se esse é o meio exclusivo e restrito(não é a informação bíblica em si mesma que salva, note bem, ela é o meio e o instrumento para isso) e nem todos tem(e durante muitos séculos não tiveram,como muitos hoje morrem sem ter), então como serão julgados esses “pobres indefesos”? E os pagãos inocentes?

Meu amado não há ninguém inocente nesse mundo pecaminoso(Rm 3.10)! Não há ninguém que não tenha pelo menos uma fagulha de certeza da existência de um Deus(Sl 19.1-4;Rm 1.18-21), Deus não ficou sem testemunho entre os gentios(At. 14.17). Eles estarão perdidos caso não haja missões, é fato.

A salvação é pela graça mediante a fé, mas como haverá fé se não ouvirem a palavra, se Paulo diz que ...a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (Rm.10.17). Se a palavra de salvação poderia ser misteriosamente absorvida por revelações, pregada por anjos ou efetuada através da revelação geral apenas, por que ele preocupado afirma? Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar(MAS NÃO SE PODE OUVIR FALAR DE FORMA MISTERIOSA A SALVAÇÃO?)? e como ouvirão, se não há quem pregue(E OS ANJOS?)? E como pregarão, se não forem enviados? assim como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam coisas boas!(Rm 10.13-15). E outra vez: Eu pelo evangelho vos gerei em Cristo Jesus (I Co 4.15).

James Denney tinha razão quando via que o homem moderno( não todos e John Wesley foi um exemplo vivo disso) comumente inventava teorias e ideiais teologicos com o proposito de acariciar sua preguiça e negligencia no evangelismo, e tudo sorreateiramente, de forma bem elaborada filosoficamente.

Categoricamente Denney afirou que: Evangelização é o interesse desinteressado de poucos.

Não adianta adocicar essa realidade tão amarga que a Bíblia e a historia testifica durante séculos: o pagão idólatra, feiticeiro e incrédulo padecerá (se não for evangelizado é claro!), não por que não escutou o evangelho apenas, mas por ser um pecador(Rm 6.23) e por que o conhecimento que ele tem sobre Deus(revelação geral) é distorcido por ele mesmo(Rm 1.18-21;2.14).

Essa era a mensagem dos grandes missionários, o impulso das missões na historia da igreja, a chama do testemunho firme da verdade que foi abandonada por muitos que deveriam defendê-la, a gravação com sangue e esforço missionário que atravessou séculos:

“Foram precisos sete anos de trabalho:

Para que Carey conseguisse batizar o primeiro convertido na Índia.

Para que Judson conquistasse o primeiro discípulo na Birmânia.

Para que Morrison levasse a Cristo o primeiro chinês.

Para que Moffat visse as primeiras evidências da operação do Espírito Santo no local onde trabalhava, na África.

Para que Henry Richards ganhasse o primeiro convertido em Banza Manteka”.

( A. J. Gordon)

Referencias bibliográficas:

PRICE, Donald E. (org), Que será dos que nunca ouviram? São Paulo, Vida Nova, 2000.

SANDERS, John (org), E aqueles que nunca ouviram? Três pontos de vista sobre o destino dos não-evangelizados. Paraná, Aleluia, 1999. 168 p.

RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. São Paulo, Edições Paulinas, 1989. 531 p.

RICHARDSON, Don. O Testemunho de Deus Através do Mundo, São Paulo, Vida Nova, 1995. 181 p.

BARTH, Karl. Carta aos Romanos, São Paulo, Novo Século. 1999. 854 p.

CALVINO, João. Romanos, São Paulo, Edições Parakletos, 1997. 523 p.

* Os principais expoentes do Pluralismo são: John Hick, Paul Knitter e Stanley J. Samartha; Exclusivismo/Particularismo: Agostinho, João Calvino, Jonathan Edwards, Donald Carson, John Piper, Ajith Fernando, Ronald Nash; Inclusivismo: Tomás de Aquino, Jacobus Arminius, John Wesley, John Henry Newman, C. S Lewis, Clarck Pinnock e John Sanders; Inclusivismo pessimista: J. I. Packer e Millard Erickson;

Agnósticos quanto ao assunto: John Stott, Harold Netland e Don Richardson.

**Entre esses casos o famoso é o liberal John Hick, que foi ministro na Igreja Anglicana. Cansado com o formalismo enfadonho da mesma, se tornou um cristão da Igreja Presbiteriana da Inglaterra, estudando em Edimburgo também era membro na Christian Union, estudou filosofia e se tornou defensor da fé evangélica conservadora. Após sua peregrinação pessoal, passou a se interessar por uma maior flexibilidade e adaptações da teologia e filosofia ao mundo moderno (God Has Many Names, John Hick. Philadelphia: Westmister Press, 1982. 140 p.). Algo parecido também aconteceu com o “ex-calvinista” Clarck Pinnock.





Evandro C. S. Junior



Fortaleza, 26 de Junho de 2010.





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