quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Estupro dos Cânticos de Salomão — Parte II

15 de Abril, 2009, Por John MacArthur

(Tradução: Nelson Ávila)

Francamente, é difícil pensar em um abuso mais terrível da Escritura que transformar os Cânticos de Salomão em pornô soft. Quando pessoas não conseguem mais ler esta porção da Escritura sem que imagens pornográficas entrem em suas mentes, a beleza do livro já tem sido corrompida, sua descrição da justiça amorosa pervertida, e sua função na santificação e elevação do relacionamento matrimonial desviada. Que pregadores façam isso no culto público é inconcebível.

Os Cânticos de Salomão são deliberadamente velados em eufemismos que, em qualquer medida, mostram-se belos. Algumas das imagens são absolutamente óbvias, outras altamente discutíveis. Em muitos lugares o significado é indistinto o bastante para permitir uma grande dose de imaginação hermenêutica, e a sabedoria parece ensinar que aqui especialmente aqui — é melhor para o pregador não ser muito mais explícito do que o foi o Espírito Santo.

E encaremos isto: em geral, o Cântico está tão longe do explícito quanto pôde o escritor fazê-lo.

Além disso, desde que o simbolismo trata obviamente acerca de paixão, romance, amor, desejo e ternura, sua ambigüidade seve a um propósito deliberado: ela fala em termos secretos aquilo que deveria ser mantido em secreto. A linguagem é claramente concebida para comunicar afeições de privacidade íntima através de termos velados, confidenciais e quase clandestinos.

Este é um ponto vital: O estilo da comunicação entre aqueles dois amantes oculta belamente o significado mais essencial de suas canções de amor, de um modo que preserva a profundidade da privacidade pessoal (e divinamente pretendida) do leito conjugal.

O Cântico de Salomão é incrivelmente belo precisamente por ser tão cuidadosamente velado. É a perfeita descrição da maravilhosa e terna descoberta da intimidade que Deus designou que acontecesse entre um jovem homem e sua noiva num lugar de segredo. Nós não somos informados em termos vívidos o que todas as metáforas significam, porque a beleza da paixão conjugal está no olho do expectador — onde deve permanecer.

Tom Gledhill sabiamente resume este ponto em seu comentário sobre os Cânticos de Salomão (pp. 29-31):

Ao desempacotar metáforas e desembrulhar eufemismos [nos Cânticos de Salomão] pode acontecer que nossos pensamentos espiralem fora de controle, e acabemos por cometer adultério em nossas imaginações. E o que fazer então se a interpretação das Escrituras se mostrar ser uma pedra de tropeço, e uma causa de ofensa para alguns que crêem? ... Uma vez que uma linha particular de interpretação tem sido sugerida, é difícil não ver explícitas alusões sexuais em todos os lugares, até que todo o trabalho se torna saturado de referências a genitália, relações sexuais e sexo explícito.

... A resposta do Novo Testamento é muito clara e direta. Jesus disse, “Se teu olho direito te faz pecar, arranca-o... É melhor perder uma parte do corpo do que ter todo o corpo lançado no inferno”. Em outras palavras, não andemos em tentação de olhos abertos quando conhecemos nossas áreas específicas de fraqueza.

... A linguagem que usamos para descrever várias partes da anatomia humana (o que o apóstolo Paulo descreve como nossas ‘partes decorosas’) é um assunto para delicada sensibilidade... Quando [explicitadas inapropriadamente] palavras são usadas em discurso verbal, uma profunda desorientação toma lugar nos ouvintes, a qual tem uma tendência de bloquear, em grande medida, qualquer capacidade adicional para uma discussão racional. Eles agem, por assim dizer, como granadas de mão. Seu uso é uma atividade terrorista, causando destruição desenfreada.

Tremper Longman III diz o seguinte acerca dos pregadores e comentaristas que interpretam as imagens poéticas dos Cânticos em termos abertamente explícitos: “A livre associação [deles] com as imagens dos Cânticos é tão prevalecente que aprendemos muito mais sobre os interpretes que sobre o texto” (NICOT, p. 14).

Considere, por exemplo, a seguinte passagem de Cânticos de Salomão 4:12-16. Aqui Salomão descreve sua noiva com uma metáfora complexa empregando símbolos florais, e ela responde fazendo eco as imagens:

Jardim fechado é minha irmã, minha noiva,

Sim, jardim fechado, fonte selada.

Os teus renovos são um pomar de romãs,

Com frutos excelentes; a hena juntamente com nardo,

O nardo, e o açafrão, o cálamo, e o cinamomo,

Com toda sorte de árvores de incenso;

A mirra e o aloés, com todas as principais especiarias.

És fonte de jardim, poço de águas vivas,

correntes que manam do Líbano!

Levanta-te, vento norte,

E vem tu, vento sul;

Assopra no meu jardim, espalha os seus aromas.

Entre o meu amado no seu jardim,

E coma os seus frutos excelentes!

Salomão descreve assim sua noiva como um jardim fechado e selado. Para ele, ela é um lugar agradável, cheio de aromas encantadores e substâncias tranqüilizantes. A descrição desenhada por ele é bela em todos os níveis. Os detalhes (“frutas escolhidas, hena com nardo, o nardo e o açafrão, o cálamo e o cinamomo... árvores de incenso, mirra” etc.) podem ou não possuir significados específicos que teriam sido conhecidos pela noiva.

O que todo interprete cauteloso pode dizer com certeza é que Salomão considera sua noiva aprazível a todas as suas percepções sensoriais. Ele, então, a compara à imagem mais agradável e bela que pode imaginar — ungüentos, fragrâncias e deleites visuais — tudo concentrado em um único e bem cultivado local. Um jardim. O jardim está “fechado”, o que, novamente, enfatiza a privacidade íntima do amor conjugal puro. Nada requer que o exegeta vá além disto. A própria Escritura não vai além disto.

“É franco, mas não é grosseiro”, disse Mark Driscoll num Domingo, a uma congregação escocesa, a menos de 18 meses atrás. Mas então ele continuou a parafrasear Salomão de uma maneira que foi totalmente grosseira e nem remotamente próxima daquilo que o Espírito Santo pretendeu. (Uma cópia em CD desta mensagem chocante, intitulada Sexo: Um Estudo das Partes Boas dos Cânticos de Salomão, me foi enviada por alguns cristãos do Reino Unido, profundamente ofendidos e preocupados. Esta é a razão primária de eu estar fazendo esta série).

Na mente de Driscoll, não é a noiva em si que é um jardim, mas uma parte específica de sua anatomia. Da maneira que ele recria a passagem, não é um poema sobre o deleite da privacidade que os cônjuges usufruem entre si; é uma maneira sorrateira de expor abertamente essa intimidade para que todos possam ver.

Em essência, ele trata os Cânticos de Salomão como a velha lenda urbana acerca das letras de “Louie, Louie”. Apenas aqueles com um conhecimento secreto podem realmente entender; e, portanto, seu verdadeiro significado deve ser algo sujo.

Esta abordagem satisfaz ouvidos lascivos. É difícil vê-lo como algo diferente de mero exibicionismo. O pior de tudo é que isto inverte todo o propósito dos Cânticos de Salomão.

Tremper Longman estava certo: eisegesi como esta não revela nada acerca do livro, mas tudo acerca do interprete.


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Traduzido de: http://www.gty.org/Resources/Articles/A397_The-Rape-of-Solomons-Song-Part-2?q=driscoll acesso In: 06 de abril de 2011, as 17hs09min.

O Calvinismo e o Futuro na Perspectiva de Abraham Kuyper

Na última de suas Palestras Stone, na Universidade e Seminário de Princeton, Kuyper (2003) apresentou o panorama social, político, histórico, cultural e religioso no qual, principalmente por influência do modernismo, sua própria época (final do séc. XIX) encontrava-se submersa. É válido ressaltar que, conquanto estejamos mais de cem anos adiante na escala do tempo (início do séc. XXI), em princípios, não diferimos tanto assim.

Embora as expectativas científicas fossem grandemente esperadas e os círculos modernistas profetizassem a grande evolução da humanidade, o homem vivia um vazio existencial, que para nós ficou ainda mais perceptível após o advento das duas grandes guerras mundiais (o colapso da esperança modernista!). Todo este vazio culminava em materialismo e vulgaridade; o homem encontrava-se a girar num mundo controlado por forças impessoais (como o acaso, por exemplo) e, aferrado como estava a sua esperança de evolução, sentia-se cada vez mais desamparado pela ausência de propósitos.

O misticismo, ou a luta da Igreja por modernizar-se, numa tentativa de tornar-se relevante, não trouxeram verdadeira transformação e resposta satisfatória a seus inquiridores, pois, negligenciar, ou fazer concessões em pontos fundamentais das verdades reveladas nas Escrituras, jamais trará ao homem o real preenchimento do qual sua alma necessita. Por isso, a nova religião que se desenvolvera, mesmo que a partir de boas intenções e esforços sinceros, ao despir-se da autoridade fundamental da qual derivam seus princípios (colocando assim sua própria cosmovisão em conflito) e seu poder – a saber, a Bíblia – veio a apresentar-se completamente impotente.

Portanto, os esforços do Catolicismo, com sua cosmovisão retrógrada; do Luteranismo, amarrado a seu imperador; e do Modernismo, tão aclamado como intelectual e superior, mas que na realidade, como o próprio Dr. Kuyper (2003, p. 195) fez saber: “[...] não tem avançado um único passo no estabelecimento de princípios, de modo algum tem dado um conceito mais elevado da vida, nem tem produzido para nós maior estabilidade e solidez em nossa existência religiosa e ética, isto é, existência verdadeiramente humana”. Por tais motivos, tais empreendimentos têm se revelado ineficazes, ou melhor, incapazes de conduzir o homem a um nível mais elevado de existência. Apenas o Calvinismo, dotado de sua própria biocosmovisão, “[...] fundada tão firmemente sobre a base de seu próprio princípio, elaborada com a mesma clareza e brilhante numa lógica igualmente consistente” (Kuyper, 2003, p. 198), é capaz de trazer verdadeira dignidade e esperança a vida humana, justamente por apresentar-se totalmente superior as demais cosmovisões.

Para que o Calvinismo alcance o efeito a que se propõe, isto é, elevar a existência humana a um nível verdadeiramente desenvolvido, Kuyper apresenta quatro pontos sobre os quais se deve refletir:

1) que o Calvinismo não seja mais ignorado onde ele existe, mas que seja fortalecido onde sua influência continua; 2) que o Calvinismo seja feito novamente um objeto de estudo a fim de que o mundo exterior possa vir a conhecê-lo; 3) que seus princípios sejam novamente desenvolvidos de acordo com as necessidades de nosso tempo, e consistentemente aplicados aos vários campos da vida; 4) que as Igrejas que ainda reivindicam confessá-lo, deixem de sentir vergonha de sua própria confissão (2003, p. 201).

Ele acredita que os objetivos do Calvinismo em prol da humanidade serão alcançados a partir do desenvolvimento destes pontos, e sua confiança, apesar da triste decadência de seus dias, repousa na convicção inabalável de que “[...] o avivamento não vem de homens; é a prerrogativa de Deus e é devido somente à sua soberana vontade [...]” (KUYPER, 2003, p. 208).

A missão da Igreja neste mundo é lutar com todas as suas forças, orar com todo o seu coração e esperar com santo fervor que Deus envie o sopro do Seu Espírito vivificante, o qual tem poder para modificar o conceito dos homens.


Nelson Ávila

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REFERÊNCIA

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Calvinismo e a Arte na Perspectiva de Abraham Kuyper

A primeira questão a ser considerada aqui é a de que o Calvinismo não desenvolveu um estilo próprio de arte, e isso se deve ao fato de a aliança entre Religião e Arte apresentar uma forma baixa de religiosidade.

Enquanto estando em um nível inferior o povo derivava sua adoração do símbolo (como o fez Israel no Antigo Testamento), o Calvinismo, alicerçado na plenitude da revelação que nos foi dada no Novo Testamento, “[...] abandonou a forma simbólica de adoração e rejeitou encarnar seu espírito religioso em monumentos de esplendor, conforme a exigência da arte” (KUYPER, 2003, p. 154), pois, desde que o propósito das sombras e símbolos tiveram seu comprimento, não é mais possível encontrar na literatura apostólica nenhum vestígio ou sombra de arte com propósito de adoração. Portanto, podemos concluir que o fato do Calvinismo abster-se da busca por um estilo artístico próprio se deve principalmente a sua consciência de maturidade e superioridade religiosa.

Entretanto, não se deve inferir daí que não haja qualquer espaço para arte no pensamento calvinista, ou mesmo um desprezo por esta. Calvino levantou-se contra o uso indevido da arte, até onde este divertia-se impiamente com a honra da mulher ou estendia-se ao campo da imoralidade, contudo, em seu uso legítimo, ele considerou a arte como um dom do Espírito Santo e declarou que “[...] todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas” (KUYPER, 2003, p. 160).

O Calvinismo, com seu dogma da graça comum, trouxe verdadeira liberdade a expressão artística, pois, já que seu ponto de partida encontra-se na firme convicção da soberania de Deus, atestou categoricamente que “[...] a arte não pode originar-se do Diabo; pois Satanás é destituído de poder criativo. Tudo o que ele pode fazer é abusar das boas dádivas de Deus” (KUYPER, 2003, p. 163).

Se por um lado o Calvinismo distanciou-se dos símbolos constituintes das artes objetivas, por outro, ele teve grande influência na promoção das artes subjetivas como a pintura e a música.

Ao apresentar sua doutrina da eleição, o Calvinismo apresentou ao meio artístico um novo pano de fundo sobre o qual produzir. Ao mostrar que Deus escolhe para si tanto grandes como pequenos, e que o povo comum, por Sua eleição, também partilha da atenção e cuidado de Deus, o artista pôde mover seus olhos do alto, sublime e celeste descrito pela ordem eclesiástica e voltá-los para o simples, humilde e discreto. O pintor pôde encontrar nova inspiração nos dramas do homem comum e seus detalhes.

Na música, o Calvinismo foi além e introduziu algumas modificações. Deve-se reconhecer aqui a inegável atuação de Loys Bourgeois (trazido por Calvino a Genebra para dar expressão musical a adoração do povo) na composição do saltério de Genebra, e Claude Goudimel que, dentre outras coisas, foi responsável por dar proeminência a soprano, que substituiu o tenor na condução da melodia (mudança que é preservada até hoje), tendo sido assassinado na Noite de São Bartolomeu, na França, por ter abraçado a fé reformada.


Nelson Ávila

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REFERÊNCIA

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

COMO_DERROTAR_O_CALVINISMO

O Calvinismo e a Ciência na Perspectiva de Abraham Kuyper

Também em sua relação com a ciência, o Calvinismo mantém uma visão própria e coerente que foi capaz de restaurar, encorajar e promover a atuação científica a partir de sua própria época.

Quando na Idade Média o Romanismo, por meio de uma concepção puramente mística, estabeleceu um dualismo entre matéria e espírito– onde a criação era vista como má e impura enquanto que só o espírito era bom e santo –, criou-se um desprezo pelas coisas terrenas em detrimento das celestiais.

O Calvinismo, porém, manteve firme sua convicção de que “os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de Suas mãos”. Calvino costumava “[...] comparar as Escrituras a um par de óculos que nos capacita a decifrar novamente o Pensamento divino, escrito pela Mão de Deus no livro da Natureza, o qual se tornou obliterado em conseqüência da maldição” (KUYPER, 2003, p. 127).

Tal visão trouxe novamente o interesse pela investigação científica, visto que ao analisar a natureza, o calvinista era sempre convidado a contemplar a mão do Criador que a fez existir. A partir daqui, torna-se evidente para Kuyper (2003, p.128) estabelecer a relação de que por conseqüência do pensamento calvinista, “[...] o estudo do corpo recuperou seu lugar de honra ao lado do estudo da alma; e a organização social da humanidade na terra foi novamente considerada como sendo um objeto tão valioso da ciência humana quanto a congregação dos santos perfeitos no céu”.

Do mesmo modo, o dogma da predestinação contribuiu significativamente para prover a base e a sustentabilidade que a investigação científica tanto necessitava, pois da sólida confiança nos decretos de Deus, o calvinista obteve a certeza de que o cosmos obedece a uma lei e ordem. Para ele:

[...] existe ali uma vontade firme que põe em prática seus desígnios na natureza e na História [...] uma unidade toda compreensível [...] um princípio pelo qual tudo é governado [...] algo que é geral, escondido e todavia expresso naquilo que é especial. Além disso, força sobre nós a confissão de que deve haver estabilidade e regularidade governando sobre tudo (KUYPER, 2003, p. 121).

O Calvinismo contribuiu ainda para com a liberdade da ciência. Ao arrancá-la do poder do Estado e da Igreja, restaurou-a a sua própria esfera soberana de atuação, de onde deveria responder exclusivamente ao Deus que a tornara possível. Isso não quer dizer que “[...] a ciência está totalmente desimpedida para o uso de sua liberdade e que não precisa obedecer leis” (KUYPER, 2003, p. 133). A ciência, pelo contrário, de acordo com Kuyper (2003, p.133) deve restringir-se “[...] a mais íntima conexão com seu assunto e obedecer estritamente as reivindicações de seu próprio método”.

Para exemplificar esta questão, Kuyper utiliza-se da metáfora de um peixe que é colocado numa terra seca, onde torna-se perfeitamente livre; todavia, esta sua liberdade só o levaria a expirar e perecer. Sendo assim, um peixe “[...] que é realmente livre para viver e desenvolver-se deve estar totalmente cercado pela água e guiado por suas barbatanas” (Ibidem), ou seja, limitar-se as exigências de sua esfera.

De acordo com a perspectiva calvinista, um bom cristão não deve relegar o trabalho científico unicamente às mãos dos não cristãos, mas, por ter o ponto de partida correto e a verdadeira compreensão da realidade que o permeia, precisa analisar os dados científicos para que estes redundem em glórias ao seu Deus.


Nelson Ávila

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REFERÊNCIA

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

sábado, 2 de abril de 2011

O EVANGELHO ESCANDALOSO

Este artigo foi traduzido da HeartCry Magazine (n° 59, Nov – Dez de 2008, p. 8, 9) e publicado com a autorização do Sr. Brad White (Coordenador da South America
HeartCry Missionary Society
) a quem agradeço pela amabilidade e atenção com que acolheu minha petição.


Por Paul Washer

(Tradução – Nelson Ávila)



“Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” (Romanos 1:16)

A carne de Paulo tinha todas as razões para se envergonhar do Evangelho que ele pregava, pois este contradizia absolutamente tudo que havia sido mantido como verdadeiro e sagrado entre seus contemporâneos. Para o Judeu, era o pior tipo de blasfêmia, pois alegava que o Nazareno que morreu amaldiçoado no Calvário era o Messias. Para os Gregos, era o pior tipo de absurdo, pois alegava que este Messias Judeu era Deus em carne. Assim, Paulo sabia que sempre que abrisse a boca para falar do Evangelho seria totalmente rejeitado e ridicularizado ao desprezo, a menos que o Espírito Santo interviesse e movesse os corações e mentes de seus ouvintes. Em nossos dias, o Evangelho primitivo não é menos ofensivo, pois ele ainda contradiz cada princípio ou “ismo” da cultura contemporânea – relativismo, pluralismo e humanismo.

Nem Tudo é Relativo

Vivemos numa era de Relativismo – um sistema de crenças baseado na absoluta certeza de que não existem absolutos. Hipocritamente aplaudimos homens por buscarem a verdade, mas clamamos pela execução pública de qualquer um que seja arrogante o bastante para dizer que a encontrou. Vivemos numa alto-imposta Idade das Trevas, e a razão para isto é clara. O homem natural é uma criatura caída, moralmente corrupta e determinada em sua busca por autonomia (i. é. auto-governo). Ele odeia Deus porque Ele é justo e odeia Suas leis porque censuram e restringem sua maldade. Ele odeia a verdade porque ela expõe quem ele é e os problemas que ainda permanecem em sua consciência. Portanto, o homem caído procura empurrar a verdade, especialmente a verdade acerca de Deus, para o mais distante possível de si. Ele irá a qualquer nível para suprimir a verdade; até ao ponto de fingir que tais coisas não existem ou que se existirem, não podem ser conhecidas ou ter qualquer influência sobre nossas vidas. O caso nunca é o de um Deus que se esconde, mas o de um homem que se esconde. O problema não é o intelecto, mas a vontade. Como um homem que enfia a cabeça na areia para evitar uma cobrança do tamanho de um rinoceronte, o homem moderno nega a verdade de um Deus justo e Seus valores morais absolutos na esperança de aquietar sua consciência e colocar para fora de sua mente o julgamento que ele sabe ser inevitável. O Evangelho Cristão é um escândalo para o homem e sua cultura porque ele faz aquilo que o homem mais deseja evitar – Ele o desperta de seu sono alto-imposto para a realidade de sua queda e rebelião, e o chama a rejeitar a autonomia e se submeter a Deus através de arrependimento e fé em Jesus Cristo.

Nem Todo Mundo Está Certo

Vivemos em uma era de Pluralismo – um sistema de crenças que põe um fim à verdade ao declarar que tudo é verdade, especialmente no que diz respeito a religião. Pode ser difícil para o Cristão contemporâneo compreender, mas os Cristãos que viveram nos primeiros séculos da fé foram verdadeiramente marcados e perseguidos como ateus. A cultura que os circundava estava imersa no teísmo. O mundo estava cheio de imagens de divindades, e a religião era um negócio florescente. Os homens não apenas toleravam as deidades uns dos outros, mas as trocavam e compartilhavam. O mundo religioso inteiro estava indo muito bem até que os Cristãos apareceram e declararam que, “deuses feitos pelas mãos humanas não são deuses de maneira alguma.” Eles negaram aos Césares a homenagem que eles exigiam, recusaram-se a dobrar os joelhos a todos os outros, assim chamados, deuses, e confessaram Jesus somente como Senhor de todos. O mundo inteiro olhou de queixo caído para tal arrogância e reagiu com fúria contra a intolerável intolerância Cristã em não tolerar.

Este mesmo cenário é abundante em nosso mundo hoje. Contra toda lógica, dizem-nos que todas as visões concernentes a religião e moralidade são verdadeiras, não importa quão radicalmente diferentes e contraditórias elas possam ser. O aspecto mais impressionante nisto tudo é que através dos incansáveis esforços da mídia e do mundo acadêmico, esta se tornou rapidamente a visão majoritária. No entanto, o pluralismo não resolve a questão nem cura a doença. Ele apenas anestesia o paciente de modo que ele já não sente ou pensa. O Evangelho é um escândalo porque desperta o homem de seu sono e se recusa a deixá-lo descansar em tal posição ilógica. Ele o força a chegar a uma conclusão – “Até quando você hesitará entre duas opiniões? Se o SENHOR é Deus, segui-O; mas se é Baal, segui-o.” O verdadeiro Evangelho é radicalmente exclusivo. Jesus não é “um” caminho, mas “o” caminho, e todos os outros caminhos não são caminho algum. Se o Cristianismo apenas movesse um pequeno passo em direção a um ecumenismo mais tolerante e trocasse o artigo definido “o” pelo artigo indefinido “um”, o escândalo seria removido, e o mundo e o Cristianismo poderiam ser amigos. Em todo o caso, sempre que isso ocorrer, o Cristianismo deixa de ser Cristianismo, Cristo é negado, e o mundo fica sem um Salvador.

O Homem não é a Medida

Vivemos numa era de Humanismo. Ao longo das últimas várias décadas, o homem tem lutado para expurgar Deus de sua consciência e cultura. Ele tem demolido cada altar visível ao “Único Deus Verdadeiro” e erigido monumentos a si mesmo, com o zelo de um fanático religioso. Ele tem administrado de modo a fazer de si mesmo o centro, a medida e o fim de todas as coisas. Ele louva sua dignidade inerente, demanda homenagem a sua auto-estima, e promove sua auto-satisfação e auto-realização como o bem supremo. Ele justifica sua consciência atormentada como o remanescente de uma religião de culpa antiquada, e desculpa a si mesmo de qualquer responsabilidade pelo caos moral a sua volta, culpando a sociedade, ou pelo menos aquela parte da sociedade que ainda não alcançou sua iluminação. Qualquer sugestão de que sua consciência possa estar certa em seu testemunho contra ele ou que ele possa ser responsável pelas variações quase infinitas de doenças no mundo é impensável. Por essa razão, o Evangelho é um escândalo para o homem caído, porque ele expõe sua ilusão acerca de si mesmo e o convence de sua queda e culpa. Esta é a essencial “primeira obra” do Evangelho, e este é o motivo pelo qual o mundo detesta tanto a pregação do verdadeiro Evangelho. Ele arruína a festa do homem, chove sobre seu desfile, expõe seu faz-de-conta, e aponta para o fato de que o rei não tem roupas1.

As Escrituras reconhecem que o Evangelho de Jesus Cristo é uma “pedra de tropeço” e “loucura” para todos os homens de todas as épocas e culturas. Portanto, para remover o escândalo da mensagem é preciso anular a cruz de Cristo e seu poder salvífico. Devemos entender que o Evangelho não é apenas escandaloso, mas ele presume ser! Através da loucura do Evangelho, Deus ordenou destruir a sabedoria dos sábios, frustrar a inteligência das maiores mentes, e humilhar o orgulho de todos os homens. A fim de que nenhuma carne possa se gloriar em Sua presença, mas como está escrito, “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.”

O Evangelho de Paulo não apenas contradisse a religião, filosofia e cultura da época, mas declarou guerra a elas. Ele se recusou a fazer uma trégua ou tratado com o mundo e não aceitaria nada menos que a absoluta redenção da cultura ao Senhorio de Jesus Cristo. Faríamos bem em seguir o exemplo de Paulo. Devemos ter cuidado para evitar qualquer tentação de conformar nosso Evangelho às tendências da época ou aos desejos de homens carnais. Não temos o direito de diluir sua ofensa ou civilizar suas exigências radicais, a fim de torná-lo mais apelativo a um mundo caído ou membros de igrejas carnais. Nossas igrejas estão cheias de estratégias para torná-las mais amigáveis por meio de uma reembalagem do Evangelho, removendo a pedra de tropeço, e suavizando a navalha, de modo que possa ser mais aceitável aos homens carnais. Devemos ser pessoas amigáveis2, mas devemos perceber isto – há um só que busca e Ele é Deus. Se estamos nos empenhando para tornar nossa igreja e mensagem mais acomodáveis, que as acomodemos a Ele. Se estamos nos esforçando para construir uma igreja ou ministério, que o construamos sobre uma paixão por glorificar a Deus, e um desejo por não ofender Sua majestade. Para o espaço com o que o mundo pensa de nós. Não estamos buscando as honras da terra, mas as honras do céu devem ser o nosso desejo.


1 Referência ao conto do alfaiate que disse ter feito para o rei uma roupa com um tecido que somente poderia ser visto por pessoas inteligentes [N. do T.].

2 A palavra traduzida aqui por “pessoas amigáveis” é “seeker-friendly”, dando a idéia de alguém que busca (“seek”) amigavelmente (“friendly”). Paul Washer faz um trocadilho ao referir-se a Deus como o único que “busca” (“seeker”) [N. do T.].

Missão HeartCry em inglês e espanhol: www.heartcrymissionary.com; www.heartcry.es

Obs: É proibida a publicação e cópia deste artigo para fins lucrativos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Estupro dos Cânticos de Salomão — Parte I

Pulpit Magazine, 14 de Abril de 2009.

(Por John MacArthur — tradução: Nelson Ávila)

Aparentemente, o caminho mais curto para a relevância no ministério da igreja atualmente é que o pastor fale sobre sexo em termos extravagantemente explícitos durante o culto matinal de domingo. Se ele puder chocar os paroquianos com palavras cruas e humor irreverente, tanto melhor. Os defensores desta tendência nos informam solenemente que sem tal estratégia é praticamente impossível se conectar com a “cultura” de hoje. (No evangelicalismo contemporâneo, este termo tem se tornado um rótulo conveniente para quase tudo que é inculto e grosseiro.)

Sermões sobre sexo têm repentinamente se tornado uma grande moda no mundo evangélico tal como a oração de Jabez jamais foi. Em todo lugar, ao que parece, igrejas estão apresentando séries especiais sobre o assunto. Algumas delas fazem propagandas com cartazes sugestivos, concebidos propositadamente para ofender a sensibilidade de suas comunidades conservadoras.

Realmente, alguns pastores têm ganhado ampla cobertura na mídia pela edição de “desafios sexuais” para membros de igrejas. Estes são esquemas que propõem sexo diário obrigatório para cônjuges durante um período de tempo específico — geralmente entre sete a quarenta dias. (Como as pessoas prestam conta disto é uma questão que tenho medo de levantar.)

Eu seria o último a sugerir que os pregadores evitassem totalmente o tema do sexo. A Escritura tem muito a dizer sobre o assunto, a começar com as primeiras palavras de Deus a Adão e Eva (“Frutificai e multiplicai-vos” — Gênesis 1:22). A lei de Deus possui numerosos mandamentos que regem o comportamento sexual, e o Novo Testamento reafirma repetidamente o padrão de pureza sexual do Antigo Testamento. Finalmente, nos capítulos finais da Escritura somos informados de que pessoas sexualmente imorais serão lançadas no lago de fogo (Apocalipse 21:8). Portanto, não há maneira de pregar todo o conselho de Deus sem mencionar o sexo.

Mas a linguagem que a Escritura emprega quando lida com o relacionamento físico entre marido e mulher é sempre cuidadosa — muitas vezes simples, algumas vezes poética, usualmente delicada, freqüentemente silenciada por eufemismos, mas nunca completamente explícita. Não há indício de lascívia irreverente na Bíblia, mesmo quando o claro propósito do profeta é chocar (como quando Ezequiel 23:20 compara a apostasia de Israel a um ato de fornicação grosseira motivada pelo desejo de bestialidade). Quando um ato de adultério é parte da narrativa (tal como o pecado de Davi com Bate-Seba), ele nunca é descrito de uma maneira que agradaria uma imaginação lasciva ou despertaria pensamentos luxuriosos.

A mensagem da Escritura a respeito do sexo é simples e consistente do começo ao fim: a total intimidade física dentro do casamento é pura e deve ser desfrutada (Hebreus 13:4); mas remova o pacto do casamento da equação e toda atividade sexual (incluindo aquela que ocorre apenas na imaginação) nada mais é que fornicação, um pecado grave que é especialmente profano e escandaloso — tanto que até falar inapropriadamente a respeito é vergonhoso (Efésios 5:12).

Acima de tudo, a Escritura nunca se rebaixa ao nível sensacionalista da educação sexual contemporânea. A Escritura não tem um correspondente ao Kama Sutra Hindu (um antigo manual de sexo sânscrito supostamente transmitido pelas deidades Hindus). Nada nas Escrituras dá qualquer vívida instrução, do tipo “como fazer”, a respeito da relação física dentro do casamento.

Isto inclui o Cantares de Salomão.

De fato, o poema amoroso de Salomão sintetiza a abordagem exatamente contrária. É, naturalmente, um longo poema sobre namoro e amor conjugal. Ele está cheio de eufemismos e imagens descritas. Todo o seu intuito é expressar gentilmente, sutilmente e elegantemente a intimidade emocional e física do amor conjugal — em linguagem adequada para qualquer público.

Mas tem se tornado popular em certos círculos empregar extremas descrições gráficas de intimidade física como um meio de expor os eufemismos do poema de Salomão. À medida que esta tendência se desenvolve, cada novo palestrante parece encontrar algo mais chocante nas metáforas que qualquer de seus predecessores jamais sequer imaginou.

Assim, somos informados que a linguagem poética de Sulamita ao invocar as delícias de uma macieira (Cânticos 2:3) é uma metáfora para sexo oral. O conforto e deleite de um simples abraço (2:6) não é nada do que parece ser. Aparentemente é impossível descrever o que este versículo realmente significa sem mencionar certas partes inomináveis do corpo.

Somos ainda assegurados de que os significados chocantes escondidos nesses textos não são meramente descritivos; eles são prescritivos. A gnose secreta dos Cânticos de Salomão retrata atos que as mulheres devem fazer obrigatoriamente se isto for o que satisfaz seus maridos, independentemente do desejo ou consciência da própria esposa. Foi-me dada recentemente uma gravação de uma dessas mensagens, onde o palestrante dizia: “Senhoras, deixem-me garantir-lhes isto: se você acha que está sendo suja, ele ficará muito feliz.”

Tais pronunciamentos são usualmente feitos em meio a gargalhadas ruidosas, mas evidentemente se espera que os levemos a sério. Quando a gargalhada se extinguiu, aquele palestrante acrescentou, “Jesus Cristo ordena que você faça isto.”

Essa abordagem não é exegese; é exploração. É contrária ao estilo literário do próprio livro. É espiritualmente equivalente a um ato de estupro. É rasgar o belo vestido poético dos Cânticos de Salomão, despir aquela porção da Escritura de sua dignidade, e apresentá-la para que seja ridicularizada e encarada com malícia de uma maneira carnal.

Mark Driscoll tem conduzido o desfile por este caminho carnal. Ele é de longe o proponente popular mais conhecido e mais prolífico desta maneira de lidar com os Cânticos de Salomão. Ele tem dito repetidamente que esta é sua passagem favorita da Escritura, e tem se voltado para ela mais e mais nos últimos anos, culminando em uma série altamente divulgada e lançada em vídeo ano passado via internet.

Continuo encontrando jovens pastores que estão seguindo agora este mesmo exemplo, e estou bastante surpreso de que esta tendência tenha sido tão bem aceita na igreja, sem praticamente nenhuma crítica significativa e sem levantar sérias objeções. Então, nos próximos dois dias vamos analisar e criticar esta abordagem dos Cânticos de Salomão, incluindo uma olhada em alguns exemplos específicos onde a linha da decência tem sido claramente ultrapassada.

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