quinta-feira, 14 de junho de 2012

UMA QUESTÃO DE CARÁTER: A importância da integridade na vida de um líder.



MESQUITA NETO, Nelson Ávila (E. T. C. S.).



1 INTRODUÇÃO


Muito tem sido discutido acerca de liderança em nossos dias. O grande número de livros e artigos escritos a respeito parece não encontrar paralelo se comparado às décadas passadas. Um senso de insatisfação, ao que tudo indica, estende-se desde o Planalto Central, em Brasília, até aquela denominação eclesiástica que teve início há cinco segundos, enquanto estas linhas eram escritas. Perspectivas acerca do que se deve esperar de um líder, ou propostas e modelos, os mais variados, para o desenvolvimento de lideranças “eficazes”, não param de jorrar a todo instante de editoras e centros de treinamentos “especializados”.
Aparentemente, a grande maioria dos programas “engessados” de liderança que nos são apresentados, visa resultados instantâneos, espelhando-se nas mais recentes percepções do mundo empresarial à nossa volta. “Dá certo?” – revela-se a pergunta mais freqüente quando o assunto é liderar pessoas. Questões como caráter e integridade parecem já não fazer mais parte da discussão, sendo absolutamente dispensáveis nos programas pragmáticos de nossa geração.
Este trabalho se propõe justamente a abordar esta temática. Entendemos que caráter e integridade, não apenas precisam ser discutidos, mas são fundamentais. Portanto, iniciaremos procurando estabelecer aqueles elementos mais básicos e que não podem faltar à definição do termo “liderança”. Em seguida, apresentaremos um panorama daquilo que nos parece ser uma incontestável crise de integridade na liderança atual. Por fim, trabalharemos numa proposta que, longe de ser nova, fundamenta-se nos “meios de graça” como base para o desenvolvimento de um caráter íntegro – alicerce para uma liderança verdadeiramente saudável.
Embora muito do que esteja escrito aqui possa ser aplicado a uma área bem mais ampla em termos de liderança, temos nossas mentes voltadas especialmente para o campo eclesiástico, por isso, o temor de Paulo, o de que, “tendo pregado a outros”, não viesse ele mesmo a ser “desqualificado” (1 Cor. 9:27) [1], permanece bem diante de nossos corações, e deve ser incentivo para os que se encontram à frente do povo de Deus


2 MAS, O QUE É UM LÍDER MESMO?


A primeira coisa que deveríamos considerar ao tratarmos sobre liderança é a seguinte pergunta: “O que faz de alguém um líder?” Com isso estamos indagando a respeito, não daquela série de qualificações exigidas de quem assume qualquer papel específico no campo da liderança, como a presidência de uma empresa, a diretoria de uma escola, a gerência de uma loja, o pastorado de uma igreja etc., mas do quesito básico, uma espécie de menor irredutível, constituinte de um líder.
Ferreira (2000, p. 426) declara em seu minidicionário que “líder” é um substantivo masculino que significa “guia; chefe”, e “liderar”, um verbo transitivo direto que pode ser tomado como “dirigir na condição de líder”, ou “ser o primeiro em.” Em suma, portanto, um líder seria alguém à frente de outras pessoas, presidindo-as ou conduzindo-as rumo a algum lugar ou objetivo. Isto parece estar de acordo com a opinião de MacArthur (2009, p. 8), o qual afirma que “um verdadeiro líder inspira seguidores.” E acrescenta: “Aquele que não tem seguidores dificilmente pode ser chamado de líder”, visto que, em suas palavras, “[...] liderança é influência”.
Assim, um líder que não influencia alguém, nem inspira qualquer um a segui-lo, logicamente não terá a quem guiar e nem sobre quem presidir, tornando, por definição, inválida a atribuição da palavra “líder” a si mesmo, embora em nossos dias já tenhamos escutado alguns defendendo idéias como “seja líder de si mesmo” e outros jargões do “mercado” de auto-ajuda.[2]
 Agora, alguém poderia questionar: “Então, tudo que é necessário para ser um líder é influenciar pessoas e ter seguidores?” Nossa resposta é “sim”, pois é exatamente isto que a palavra líder significa; qualquer um nesta condição pode reivindicar o direito de chamar-se líder. Todavia, a indagação que deve levantar-se aqui não é tanto a respeito da distinção entre um líder e um não-líder, mas entre um líder bom e um líder ruim. Jin Jones foi um líder extremamente persuasivo, contudo não foi um bom líder; o fruto de seu ministério foi o acontecimento de 18 de Novembro de 1978 em Jonestown, na Guiana, que ficou conhecido como o maior suicídio em massa dos tempos modernos, onde 909 membros do “Templo do Povo” tiveram suas vidas ceifadas ao seu comando. Então, o que faz de alguém um bom líder?
Embora tenhamos usado o exemplo de Jin Jones, por ser um modelo negativo bem extremo de um líder, não nos deteremos em casos como o dele, onde um emaranhado de outras questões, muitas delas psicológicas, poderia ter lugar. Nosso caso é bem mais simples, e busca avaliar uma liderança saudável em termos de integridade, sendo esta resultante de um bom caráter.
MacArthur declara que “o líder ideal é alguém cuja vida e cujo caráter motivam as pessoas a seguirem seu exemplo” (2009, p. 8). Isto é absolutamente verdade. Muitos que ocupam papéis de liderança em grandes empresas possuem currículos invejáveis, e mesmo que consigam certo número de resultados positivos, estão muito aquém do que poderiam obter por meio de um simples exemplo de integridade pessoal. O problema é que “muito da ‘liderança’ do mundo não passa de manipulação das pessoas por meio de ameaças e recompensas” (MACARTHUR, 2009, p. 8). Desta maneira, os liderados obedecem por pura obrigação e de má vontade, estando dispostos a serem negligentes nas áreas em que os próprios líderes apresentam-se vulneráveis. Não é incomum ouvirmos pessoas retrucando acerca de seus superiores: “Se ele que é o maior interessado não faz, ou não se preocupa, por que eu deveria?” Este é o reflexo claro de alguém que não está comprometido com a causa pela falta de exemplo. Por isso, “o melhor tipo de liderança tira sua autoridade primeiro da força de um exemplo justo e não meramente do poder de prestígio, personalidade ou posição” (MACARTHUR, 2009, p. 8). Uma autoridade que se alicerça sobre um caráter íntegro que lidera pelo exemplo, chama seus liderados ao comprometimento voluntário, ao conduzi-los a um padrão que encontram no próprio líder e não a um padrão intangível e inalcançável, conquistando respeito, autoridade e gerando maior produtividade.
Temos falado em liderar por meio de exemplo, exemplo este que é reflexo de caráter e integridade pessoal, mas, o que queremos dizer por “caráter e integridade pessoal”? Esta é uma pergunta pertinente. MacArthur aponta para uma dificuldade por trás deste questionamento ao afirmar: “O problema é que vivemos numa era em que a própria definição de caráter ficou indistinta. As pessoas lamentam a perda de integridade em termos gerais, mas poucos têm alguma idéia clara do que a ‘integridade’ mais requer.” Aqui tomaremos ambos os termos, caráter e integridade, como intercambiáveis e sinônimos, apontando para uma postura ética e moral que se fundamenta, acima de qualquer convenção social, na eterna, imutável, autoritativa e inerrante Palavra de Deus, e busca viver de acordo com o padrão estabelecido por esta.
Embora muito do que se tenha dito acima possa ser aplicado à liderança de um modo geral, estamos interessados em estabelecer aqui um padrão para o líder cristão, independente de se o seu círculo de atuação se desenvolve na igreja ou num ambiente secular. Talvez algum líder não-cristão possa identificar-se com o descrito, visto que por vezes mesmo aqueles que não possuem “lei”, acabam procedendo “de conformidade com a lei”, em virtude da “norma da lei gravada” em seus corações (Rom 2:14, 15). Porém, somente o líder cristão tomará conscientemente as Sagradas Escrituras para abalizá-lo.


3 A CRISE DE INTEGRIDADE NA LIDERANÇA


Um clamor por líderes íntegros, às vezes até inconsciente, é claramente perceptível em nossos dias. As pessoas estão gritando por justiça diante da grande corrupção que se tem alastrado praticamente por toda a esfera ocupada por aqueles em posição de autoridade; embora seja bem verdade que este clamor esteja permeado também por excessivas doses de hipocrisia, visto que os que protestam, não raro, enquanto o fazem corrompem a si mesmos na primeira oportunidade de benefício próprio que encontram.
De acordo com MacArthur, “A integridade pessoal, aparentemente, não é mais uma exigência para o ofício político” (2009, p. 15), e poderíamos estender esta afirmação para bem mais do que apenas o âmbito político. Mas, por que tem sido tão difícil encontrar líderes de caráter?
MacArthur faz uma breve análise do baixo padrão moral de nossa sociedade, capacitando-nos a enxergar um mecanismo criado por ela mesma que milita contra qualquer tentativa de um crescente desenvolvimento de caráter e integridade:
A nossa é a primeira sociedade desde o decadente império romano que regulariza a homossexualidade. Nós estamos vivendo na primeira geração em centenas de anos que legalizou o aborto. O adultério e o divórcio são epidêmicos. A pornografia é agora uma indústria enorme e um empecilho principal no caráter moral da sociedade. Praticamente mais nenhum padrão moral ou ético claro é aceito. Não é à-toa que é difícil encontrar integridade pessoal inflexível (2009, p. 16).
As bandeiras da pós-modernidade são a tolerância e o relativismo. O relativismo destrói qualquer padrão moral e ético para julgamento do que quer que seja, visto que a própria verdade, a verdade absoluta, tem sua existência aniquilada, sendo substituída por um incontável número de opiniões, as mais variadas, que recebem agora igualmente o status de “verdade”, vago pela ausência da primeira.
A “tolerância” nos diz que se deve “1. Ser indulgente [condescendente, complacente] para com. [Bem como] 2. Consentir tacitamente [silencioso, calado]” (FERREIRA, 2000, p. 675). [3] Com isso, nossos julgamentos e críticas devem restringir-se as nossas próprias visões e “verdades”, resguardando as dos outros como plenamente válidas. Desta maneira, o que quer que satisfaça os ímpetos de alguém, independente de quão moralmente decadente possa parecer, como a abertura de casas para a troca de casais, o incentivo a fornicação por meio da distribuição de preservativos à adolescentes para “sexo seguro” e a regulamentação da prostituição como profissão, deve ser simplesmente aceito.
Aos que se levantam em protesto, tachando-nos de radicais, e apontando para o assassinato, o roubo, o excesso de velocidade etc. como crimes punidos pela lei que restringem a ação dos homens, impedindo que os ímpetos maus de alguém sejam irrestritamente satisfeitos, indagamos a respeito da base objetiva sobre a qual se fundamentam tais proibições. Alguns lançarão mão da subjetiva “vontade” da maioria em detrimento da “vontade” da minoria, mas isto despedaça completamente a propaganda pluralista do relativismo e da tolerância, sem falar que o problema torna-se ainda maior: “Com a crescente onda de violência e promiscuidade, o que nos garante então que a maioria vai continuar defendendo o assassinato, o roubo, a pedofilia etc., como crimes dignos de punição?” A união homossexual era matéria absolutamente inconcebível até bem pouco tempo atrás, porém já é regulamentada por lei em diversos lugares. O aborto já foi defendido em campanha eleitoral pela presidenta Dilma V. Rousseff [4], e mesmo a regulamentação da maconha encontrou no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso[5] um ferrenho defensor. Quem nos garante que o próximo passo não será a legalização da pedofilia? Sem um alto padrão objetivo ético e moral para orientar as relações neste mundo de pecado e morte, estaremos completamente desprotegidos.
Infelizmente, a crise não afeta apenas o ambiente extra-eclesiástico. Muitos daqueles que se apresentam como líderes do povo de Deus, e, portanto, deveriam ser verdadeiros estandartes para onde as pessoas neste mundo caído poderiam olhar e encontrar o que realmente significam caráter, justiça, integridade, santidade etc., são testemunhos vivos exatamente do contrário, propagando o mesmo tipo de mentalidade mundana que permeia toda a sociedade hodierna; abandonando o alto padrão apresentado na Bíblia e abalizando-se pelos ditames da cultura vigente.
MacArthur Jr. declara que “é espantoso como a maioria das igrejas escolhem sua liderança. Elas selecionam pessoas que sejam mais bem sucedidas nos negócios, que tenham mais para dizer, e que tenham mais dinheiro” (1991, p. 103) [6]. Ele acrescenta: “Um homem não deve ser um líder na igreja porque é um bem-sucedido homem de negócios, tem habilidade inata para liderança, ou é um super vendedor. Ele deve ser um líder porque ele é um homem de Deus. Este é o princípio da efetividade na igreja” (1991, p. 104) [7]. Todavia, quão ignorado tem sido este princípio e quanto estrago tem sido causado por fecharmos os olhos para o que a Palavra de Deus nos ensina tão claramente em passagens como 1 Timóteo 3:1-13 e Tito 1:5-9.
Romeiro (1999) deu o seguinte título a um de seus livros: “Evangélicos em crise: decadência doutrinária na igreja brasileira”. Este expressa bem a realidade vivida na maior parte daquilo que hoje se chama igreja.
Neste livro, Romeiro nos apresenta a falta de discernimento do “evangelicalismo” brasileiro, dando exemplos, ainda, de líderes eclesiásticos que sustentam os mesmos baixos padrões morais de nossa sociedade corrompida, como no caso de Nehemias Marien, o qual afirma “[...] ser pastor presbiteriano da primeira igreja ecumênica do Brasil” (1999, p. 20) e defende abertamente que “na homossexualidade se pratica o amor liberto de todas as formas de preconceitos, numa entrega plena e sem restrições. Por isso mesmo mais puro e sincero” (1999, pp.22, 23); alegando que “o homossexualismo é uma prática de amor (...). [E por isso] A igreja não tem o direito de sonegar a bênção divina a duas almas gêmeas, não necessariamente macho e fêmea, quando estas se encontram no amor” (1999, p. 23).
Romeiro escreve que “Nehemias Marien não é o primeiro a publicar tais abominações” (1999, p. 23), e aponta para John Shelby Spong, “bispo de uma igreja episcopal nos Estados Unidos”, como alguém que defendera posições semelhantes, tendo chegado mesmo a declarar “[...] sem hesitação: ‘Eu espero ser usado por Deus para introduzir o homossexualismo na Igreja evangélica” (1999, p. 23). Mais recentemente, pode-se falar ainda a respeito das declarações do Pr. Ricardo Gondim [8], líder da Igreja Betesda, que chocaram o mundo evangélico ao serem interpretadas como apoio a causa homossexual.
A crise é tão alarmante que mesmo posições como o aborto têm encontrado guarida em círculos eclesiásticos modernos. Seu maior defensor no Brasil talvez seja o cabeça da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Macedo, que a despeito do título “Igreja”, é considerada pelos conservadores como uma seita neopentecostal, embora vista pelos leigos, ou mal intencionados, como legítima comungante do movimento evangélico.
Não bastassem todas estas coisas, ainda temos os escândalos morais, na maioria deles envolvendo lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, crimes dos quais foram acusados o já mencionado bispo Macedo[9], e os líderes da igreja Renascer, Estevão e Sônia Hernandes [10], os quais chegaram até a ser presos nos Estados Unidos. Outros escândalos no âmbito moral geralmente dizem respeito a casos de infidelidade conjugal, como no famoso episódio do então Pastor presbiteriano Caio Fábio [11], em 1999, hoje líder do “Caminho da Graça”, e do televangelista internacional Jimmy Swaggart, o qual confessou em seu programa de televisão ter pecado, após Marvin Gorman, também televangelista, ter entregue “[...] aos oficiais da igreja fotografias de Jimmy Swaggart do lado de fora de um motel com uma prostituta” (CARTER e TRULL, 2010, p. 92). O curioso nesse caso é que o próprio Gorman, durante um processo contra Swaggart, também admitiu ter praticado “[...] um único ‘ato imoral’ com uma mulher” (CARTER e TRULL, 2010, p. 92).
O divórcio, já tido por natural na cultura ocidental, vem a algum tempo conquistando espaço também nos círculos ditos “evangélicos”. Aparentemente, não é muito difícil encontrar pastores que já estejam no segundo ou mesmo no terceiro casamento. A prescrição de Paulo, de que o líder deve ser “esposo de uma só mulher” (1 Tim. 3:2; Tit. 1:6), tem sido completamente relativizada. A este respeito, Lopes (2008, p. 136) aponta para pelo menos três problemas enfrentados pelos ministros divorciados: a) Ele expressa não saber “[...] como pastores que enfrentam a separação, o divórcio, um novo casamento e a adaptação à nova realidade (se tiver filhos é ainda mais difícil) encontram tranqüilidade para pastorear, ao mesmo tempo em que vivem as angústias da crise”; b) “O segundo ponto é o exemplo, para os filhos, se houver, e para os casais da igreja pastoreada”, o qual, para não dizer algo pior, fica extremamente arranhado; c) O terceiro, por fim, “[...] é a questão da autoridade. [...] Qual a autoridade de um pastor divorciado já pela segunda ou terceira vez para exortar os maridos da sua igreja a amar a esposa e a se sacrificar por ela?” Questiona Lopes.
Por uma série de razões como as supracitadas, Romeiro (1999, p.18) escreveu: “Temos hoje uma necessidade urgente de mais líderes que nos sirvam como modelos de oração, piedade e integridade. É claro que não são todos, mas há vários precisando muito mais de receber ministração do que em condições de ministrar.” No mesmo tom de lamento, Fernando (2003, pp. 35, 36) declarou:
Temo que o comportamento da presente geração de líderes cristãos seja tal que estejamos indo dar à próxima geração um exemplo muito pobre de piedade. Se não detivermos esta tendência, poderemos ser responsáveis por uma erupção de cinismo na geração mais jovem, onde as doutrinas não mais são honradas porque os líderes da primeira geração não adornaram a doutrina com vidas santas (Tit. 2:10). [12]

Embora este mundo não seja tão ruim quanto o potencial que ele detém, e isto se deve aos freios da graça de Deus apenas, o abandono da Palavra de Deus como única regra de fé e prática para a sociedade, e mesmo dentro da própria igreja, e a inclusão de padrões humanos inferiores, tornou possível a construção de uma cultura degradante e, conseqüentemente, a erupção de uma incontestável crise de caráter e integridade que assolam nossa era, principalmente no que diz respeito à liderança, a qual deveria apresentar-se como o espelho do povo que a segue. A pergunta que se levanta então é: “O que fazer para vencer a crise?”


4 NADANDO CONTRA A MARÉ


Muitas pessoas hoje estão dispostas a admitir a crise de liderança em nossa sociedade; são sinceros ao avaliar suas próprias falhas de caráter e pecados pessoais, porém, sinceridade apenas não é suficiente. Lidório (2008, p.17) afirma que “a grande diferença entre sinceridade e integridade é a obediência. Enquanto a primeira reconhece suas falhas e erros, a segunda se contorce incomodada por concerto e transformação. A integridade [portanto] vai além da sinceridade”. Assim, o primeiro desafio do líder cristão é batalhar por integridade.
De acordo com Lidório (2008, p. 9), na Palavra de Deus, “[...] a oração mais marcante na busca pela integridade talvez tenha sido a proferida pelo salmista, quando clamou: ‘Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno’” (Sal. 139:23, 24). Para ele, esta oração “[...] reconhece a nossa incapacidade de autoconhecimento e que, portanto, precisamos de Deus para nos sondar. Reconhece também a incapacidade humana de discernir os caminhos, ou de fazer a escolha certa entre o caminho mau e o caminho eterno” (2008, pp. 9, 10). Lidório arremata afirmando que “necessitamos de Deus para nos guiar.” E acrescenta: “Essa oração expressa as áreas da vida em que a luta se trava. Não é nos palácios ou nas ruas, mas no coração e nos pensamentos. Precisamos de Deus para nos provar. ‘Guia-me pelo caminho eterno’ deve ser o nosso pedido a cada nova manhã” (2008, p. 10).
Tal visão vai na contra-mão do que nos é proposto na atualidade. Longe de clamar a Deus por uma mudança em nosso caráter, que pode ser demorada e dolorosa, as pessoas estão em busca de soluções rápidas e fáceis. “Nossa cultura hoje está clamando por soluções pragmáticas, fórmulas confortáveis, programas de três passos, quatro passos, ou doze passos para responder a toda necessidade humana” (MACARTHUR, 2009, p. 10), porém, “[...] a liderança não é tanto sobre estilo ou técnica quanto é sobre caráter” (MACARTHUR, 2009, p. 8). MacArthur expressou esta verdade de uma outra maneira:
[...] o caráter – não estilo, não técnica, não metodologia, mas caráter – é o verdadeiro teste bíblico em relação à liderança notável. A organização empresarial é maravilhosa, porém o empresário sem caráter mais qualificado no mundo não é nenhum líder genuíno. Planejamento estratégico é importante, mas se você não tiver líderes que as pessoas seguirão, seu plano estratégico falhará. A clareza de uma declaração proposta bem traçada é crucial, mas o verdadeiro líder espiritual tem de ir além de esclarecer somente o foco das pessoas. O líder autêntico é um exemplo para seguir (2009, p. 11).
                                                               
Assim, “[...] um escravo humilde de caráter inatacável é mais satisfatório para liderança espiritual que um magnata empresarial cuja integridade é questionável” (MACARTHUR, 2009, p. 150). Por isso, MacArthur afirma: “Um homem é qualificado para esta posição por causa do que ele é, não meramente por causa do que ele faz. A ênfase está sempre no caráter mais do que na habilidade. A pureza, não a personalidade, é a questão fundamental” (2009, p. 150).
Lidório destaca que “a integridade, bem como outras virtudes cristãs, precisa ser construída” (2008, p. 15). Nossa pergunta, então, deve ser o que podemos fazer para cultivarmos um caráter integro à semelhança do que encontramos na Palavra de Deus, e que fora cabalmente exemplificado, na prática, pela própria vida santa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo?
Deus proveu para o Seu povo meios pelos quais podemos trabalhar nosso caráter. Os assim chamados “meios de graça”, são, em resumo, a oração, a Palavra e as ordenanças (ou sacramentos). Estes estão à nossa disposição e devem ser empregados por nós.

4.1 Oração

Embora já tenhamos falado um pouco sobre a necessidade de clamarmos a Deus para nos sondar e apontar nossos caminhos maus, afim de que possamos ser guiados rumo ao caminho eterno, cremos que algo mais precise ser dito a respeito da oração.
Os afazeres da vida geralmente têm conduzido muitos líderes a negligenciarem seus momentos de oração. Na verdade, até mesmo grandes homens de Deus, doutores em muitas das diversas áreas do escopo teológico, quando tratam da oração continuamente descrevem-se como pequenos aprendizes. Miller (2004, p. 25) declara que até mesmo o príncipe dos pregadores, Charles H. Spurgeon, “[...] dono de grande experiência nessa prática, incluía-se entre os que se sentem pouco à vontade com essa disciplina espiritual. Em determinado momento, ele chegou a dizer: ‘Em geral, sinto-me mais insatisfeito com minhas orações do que com qualquer outra coisa que faça’”.
Declarações como esta, vindas de um homem como Spurgeon, pode nos trazer algum conforto quando encaramos nossa própria luta com a oração, porém não devemos transformar este conforto em licença para a passividade. O próprio Spurgeon (2002, p. 70) declarou: “O ministro que não ora fervorosamente pela obra que realiza, só pode ser um homem fútil e vaidoso. Age como que se considerando auto-suficiente, e, portanto, como se não precisasse apelar para Deus.” Em outro lugar ele exclamou: “Creio que encontraremos menos falhas no ministério quando houver mais crentes a sós com Deus em oração” (apud MILLER, 2004, p. 31). Em certa ocasião Spurgeon (apud MILLER, 2004, p. 31) lamentou: “Se fôssemos mais fortes e vigorosos na oração, mais fervorosos em nosso coração, mais virtuosos na vida, quem saberia dizer que efeito exerceríamos sobre nossa época”. Ah, se este lamento ardesse nos corações dos líderes de nossos dias! O próprio Senhor Jesus era constante na prática de orações. O autor aos Hebreus diz que “nos dias da sua carne”, Jesus ofereceu, “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte” (Heb. 5:7). Ele também foi responsável por ensinar seus discípulos a orar (Mat. 6:9-13; Luc. 11:2-4), instruindo-os a pedir livramento das tentações. A oração é responsável por boa parte do trabalho de lapidação de um caráter, visto que nos coloca bem diante do Deus que é Santo, Santo e Santo.

4.2 A Palavra

Paulo registrou: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tim. 3:16-17). Desta maneira, a leitura da Palavra é requisito indispensável para qualquer um que almeje crescimento espiritual, pois ela é plenamente suficiente para o aperfeiçoamento do homem de Deus. Isto é ainda mais imprescindível ao ministro cristão, o qual é responsável pelo ensino da mesma.
Paulo escreveu a Timóteo que o bispo, isto é, o pastor [13], deve ser “apto a ensinar” (1 Tim. 3:2). Sanders (1985, p. 34) afirma que “mental e espiritualmente, o líder deve ter capacidade para ensinar”, e acrescenta: “Se ele [o líder] deseja ensinar, deve primeiro tornar-se um estudioso das Escrituras.” Citando H. A. Kent, Sanders (1985, p. 34) escreve: “Nenhum homem que se mostre incapaz de ser bem sucedido no ensino está capacitado para a liderança espiritual”.
Em sua interpretação de “apto a ensinar”, Sanders (1985, p. 34) explica ainda que “a palavra não implica apenas na habilidade mas também em disposição para ensinar; um desejo veemente, quase compulsivo, de compartilhar com outros as verdades que o Espírito Santo lhe ensinou, a partir das Escrituras”.
Enquanto que a leitura diária das Escrituras o vai auxiliando a desenvolver um caráter íntegro, sua posição como líder e expositor das Escrituras deve pressupor seu progresso no caminho da santificação. Como Sanders bem expressa: “O líder espiritual é responsável pelo ensino àqueles que estão sob seus cuidados, em grau maior ou menor, e seu ensino deve ter o suporte de uma vida inculpável” (1985, p. 34), ou seja, deve implicar em integridade de caráter. A Palavra é o martelo do Espírito na forja de um caráter. Pregá-la e não vivê-la é uma brutal contradição.
4.3 As ordenanças

Na tradição protestante são consideradas ordenanças, ou sacramentos, os dois mandamentos que Cristo nos deixou, a saber, o batismo (Mat. 28:19) e a Santa Ceia (Luc. 22:19-20; 1 Cor. 11:23-25). No batismo somos sepultados com Cristo em Sua morte e ressuscitamos com Ele para andarmos em novidade de vida (Rom. 6:4). Assim, Ware (In WRIGHT, 2009, p. 41) declara:
Uma área onde a maioria dos credobatistas e dos pedobatistas concorda é esta: o batismo é o sinal e o selo da nova aliança, inaugurada pela morte e ressurreição de Cristo, significando a promessa para o batizado de que os pecados são perdoados, de que a nova vida em Cristo é recebida, e de que Deus dá a pessoa um novo coração e a habitação do Espírito Santo, pela fé.[14]

Em outras palavras, é a exteriorização de um ato operado por Deus no interior do crente; “[...] é um sinal de fé [o aspecto subjetivo da profissão de fé do batizando], mas, em adição, é um sinal de em quê aquela fé está confiando [o aspecto objetivo da obra de Cristo realizada em Sua morte e na ressurreição]” (WARE in WRIGHT, 2009, p. 73) [15].
Desta forma, os ministros e líderes cristãos deveriam trazer à mente a realidade do batismo sempre que a tentação se apresentar buscando corromper seu caráter, ou seja, deveriam rememorar aquilo que professaram ao batizar-se, de que estavam crucificando seu “velho homem” (Rom. 6:6), morrendo “para o pecado” e ressuscitando a fim de viver “para Deus” (Rom. 6:10), e a obra realizada por Cristo em seus lugares, sobre a qual estão fundamentados seus batismos.
Do mesmo modo, a respeito da Ceia do Senhor, o Puritano Thomas Doolittle (1630-1707) escreveu: “O fim é dado pelo qual nós devemos nos aproximar da Mesa do Senhor: ‘Fazei isto em memória de Mim.’ Sempre que celebramos a Ceia do Senhor, nós comemoramos a morte do Senhor” (1998, p. 4) [16]. Doolittle (1998, p. 4) diz ainda que “está de acordo com a mente de Cristo que os crentes na Ceia do Senhor deveriam fazer uma aplicação particular dEle próprio, e dos frutos de Sua morte e sofrimentos, a si mesmos.” [17] Segundo ele, “Um crente poderia pegar o pão e dizer, ‘O Senhor Jesus morreu por mim.’ E ele poderia tomar o vinho e dizer, ‘Cristo Jesus derramou seu sangue por mim’” (DOOLITTLE, 1998, p. 4) [18]. Assim, somos relembrados na ceia do grande sacrifício que Cristo fez por nós. Cristo foi pregado numa cruz para que tivéssemos vida. Ele “foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isa. 53:5).
Se os sacramentos apontam para a realidade da morte e ressurreição de Cristo e se entendemos que isto foi feito por nós e em nosso lugar, devemos viver “por modo digno de Deus”, que nos chamou “para o seu reino e glória” (1 Tes. 2:12). Esta é uma verdade para todos os crentes, mas principalmente para os que estão em posição de destaque e autoridade.

4.4 O alto padrão

Diferentemente do que se é exigido dos que ocupam cargos de chefia na sociedade, o padrão de liderança estabelecido na Palavra de Deus é muito elevado. O ministro deve ser “irrepreensível” (Tit. 1:6, 7; 1 Tim. 3:2), “marido de uma só mulher” (Tit. 1:6; 1 Tim. 3:2), deve governar “bem a própria casa” (1 Tim. 3:4) e ter “filhos crentes” (Tit. 1:6), criados “sob disciplina, com todo o respeito” (1 Tim. 3:4), de modo que não sejam “acusados de dissolução”, nem sejam “insubordinados” (Tit. 1:6); o líder não deve ser “neófito” (1 Tim. 3:6), nem “arrogante” (Tit. 1:7), nem “irascível” (Tit. 1:7), nem “dado ao vinho” (Tit. 1:7; 1 Tim. 3:3), “nem violento” (Tit. 1:7; 1 Tim. 3:3), “nem cobiçoso de torpe ganância” (Tit. 1:7), “antes, hospitaleiro” (Tit. 1:8; 1 Tim. 3:2), “cordato” (1 Tim. 3:3), “amigo do bem” (Tit. 1:8) e “inimigo de contendas” (1 Tim. 3:3), “sóbrio” (Tit. 1:8; 1 Tim. 3:2), “modesto” (1 Tim. 3:2), “justo” (Tit. 1:8), “piedoso” (Tit. 1:8), tendo “domínio de si” (Tit. 1:8) e sendo “temperante” (1 Tim. 3:2), “apto para ensinar” (1 Tim. 3:2) e “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tit. 1:9). Talvez um resumo de tudo isso seja o mandamento do apóstolo Paulo de que deveríamos seguir o seu exemplo de imitar a Cristo (1 Cor. 11:1), visto que Ele, Cristo, traz em si toda a plenitude da virtude. Por fim, o líder deve ser imitador até mesmo do próprio Deus-Pai (Efé. 5:1).
Diante disso MacArthur indaga: “Por que esse alto padrão?” Ao que ele mesmo responde: “Porque tudo o que os líderes são as pessoas se tornam”, visto que “líderes espirituais estabelecem o exemplo para outros seguirem” (2009, p. 150). Lidório diz que um pastor amigo seu “[...] percebia, entre outras coisas importantes, que nenhum homem vai além do seu caráter. E entendia o perigo de se desenvolver uma liderança ou uma reputação sem um caráter íntegro como fundamento” (2008, p. 15). Semelhantemente, no que diz respeito aos liderados, MacArthur afirma: “As pessoas não subirão acima do nível espiritual da sua liderança” (2009, p. 150). Como disse Jesus, “o discípulo não está acima do seu mestre” (Luc. 6:40). E o profeta Oséias também declarou algo similar, “como é o povo, assim é o sacerdote” (Osé. 4:9).
Temos visto como desenvolver um caráter íntegro através do uso dos “meios de graça” que Deus confiou ao Seu povo, buscando o Senhor em oração, aprendendo dEle na Palavra e trazendo à memória, através das ordenanças, aquilo que Cristo fez por nós em Sua morte e ressurreição. Vimos ainda o alto padrão exigido daqueles em posição de liderança, visto que estes servem de modelo aos que se encontram sob sua influência. Precisamos, por fim, relembrar que todos nós prestaremos contas a Deus no dia em que Ele vier julgar as nações. “Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Luc. 12:48). Em toda esta crise atual, pode-se encontrar pelo menos um lado positivo. As pessoas estarão prontas para seguir aqueles em quem elas puderem confiar, e este será, certamente, o líder de caráter. Quão reprováveis seremos nós se, tendo esta oportunidade nas mãos, negligenciarmos nosso dever de apresentarmo-nos como “sal e luz” (Mat. 5:13-14) diante desta geração insípida e que anda em trevas.


5 CONCLUSÃO


Concluímos, portanto, afirmando que se um líder quer de fato obter resultados, deve inspirar pessoas a seguir seu exemplo, e isto só será alcançado por meio da demonstração de um caráter íntegro em que os liderados sentem-se à vontade para confiar. Isto se aplica à todas as áreas da liderança e ainda mais especialmente à liderança eclesiástica, onde caráter e integridade não são opção, mas dever.
A partir de uma perspectiva meramente humana, devemos reconhecer que somos falhos e pecadores demais para cumprir perfeitamente as exigências da perfeita e santa Palavra de Deus, todavia, não podemos descansar de batalhar por santidade, fazendo uso dos maios de graça que o Senhor nos deixou, para que, de algum modo, possamos refletir a glória daquele a quem seguimos.
A exortação de Paulo à Timóteo, o jovem líder em formação, deve ser dirigida a nós também: “Tu, porém, ó homem de Deus, foge” de uma vida de pecados, e “segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. Combate o bom combate” e “guardes o mandato imaculado, irrepreensível, até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tim. 6:11, 12, 14). Líder, “mantém o padrão das sãs palavras” (2 Tim. 1:13).


  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARTER, J. E.; TRULL, J. E. Ética ministerial: um guia para a formação moral de líderes cristãos. São Paulo: Vida Nova, 2010.

DOOLITTLE, T. A treatise concerning the Lord’s Supper. Morgan: Soli Deo Gloria Publications, 1998.

FERNANDO, A. Jesus driven ministry. Leicester: Inter-Varsity Press, 2003.

FERREIRA, A. B. H. Miniaurélio século XXI escolar: o minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

LIDÓRIO, R. Liderança e integridade. Belo Horizonte: Betânia, 2008.

LOPES, A. N. O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

MACARTHUR, J. O livro sobre liderança. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

MACARTHUR JR., J. F. The Master’s plan for the church. Chicago: Moody Press, 1991.

MILLER, S. Liderança espiritual segundo Spurgeon. São Paulo: Editora Vida, 2004.

ROMEIRO, P. Evangélicos em crise: decadência doutrinária na igreja brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

SANDERS, J. O. Liderança espiritual: guia das virtudes essenciais. São Paulo: Mundo Cristão, 1985.

SPURGEON, C. H. Lições aos meus alunos: homilética e teologia pastoral, vol. 2. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2002.

WRIGHT, D. F. (Ed.). Baptism: three views. Downers Grove: InterVarsity Press, 2009.


[1] Todas as citações bíblicas, com exceção das expressamente identificadas, foram retiradas da versão Almeida Revista e Atualizada (2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009), doravante ARA.
[2] A pergunta que se levanta é a seguinte: alguém que esteja lendo um livro como “Seja líder de si mesmo” não estaria sendo liderado pelo autor ao invés de por si mesmo? Em outras palavras, terminando a leitura alguém estaria realmente capacitado a ser um líder de si mesmo, ou, ao seguir os conselhos de um livro tal, as pessoas simplesmente caminhariam conforme as prescrições do autor, o verdadeiro líder?
[3] Embora o dicionário (FERREIRA, 2000) apresente um terceiro significado para “tolerar” (p. 675) como “suportar”, ele deixa claro que este suportar (p. 654) é num sentido de “Sustentar”, como “Segurar para que não caia; suster; suportar” (p. 656), o que seria algo como “dar suporte a”, o que propaga a idéia de que ser tolerante é apoiar a opinião do próximo sem exercer julgamento.
[4] Em sua página na internet, a redação do UCHO.INFO: a marca da notícia, publicou no dia 13/02/2012: “Durante a campanha presidencial, em 2010, Dilma defendeu a tese de que o aborto deve ser tratado como questão de saúde pública.” Na mesma matéria, é citada uma declaração feita em 2004 por Eleonora Menicucci de Oliveira, atual Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, onde ela declara: “Estive também fazendo um treinamento de aborto na Colômbia. Era nas Clínicas de Aborto. A gente aprendia a fazer aborto.” (In: , acesso em 22/05/2012 às 15:31 hs.).
[5] Em um documentário conduzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e exibido no programa “Fantástico”, da Rede Glogo, a apologia à legalização da maconha ganhou audiência nacional. O “Fantástico” declara ter aberto votação entre os telespectadores para mensurar a opinião a respeito e alega que “57% dos telespectadores que votaram defenderam que o consumo deve ser permitido e regulamentado.” (In: , acesso em 22/05/2012 às 15:47 hs.)
[6] It`s amazing how most churches choose their leadership. They select people who are the most successful in business, who have the most to say, and who have the most money.
[7] A man is not to be a leader in the church because He is a successful businessman, has innate leadership ability, or is a supersalesman. He is to be a leader because he is a man of God. That is the beginning of effectiveness in the church.
[8] Em entrevista a CARTA CAPITAL, quando perguntado se era “[...] a favor da união civil entre homossexuais”, Gondim respondeu: “Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.” (In: , acesso em 22/05/2012 às 15:59 hs.).
[9] De acordo com a página na internet da emissora Rede Globo de Televisão, o G1, “O Ministério Público Federal apresentou uma denúncia contra o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e mais três dirigentes sob acusação de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha, falsidade ideológica e estelionato contra fiéis para a obtenção de recursos para a igreja.” (In: , acesso em 22/05/2012 às 16:07 hs.).
[10] De acordo com a página na internet da emissora Rede Globo de Televisão, o G1, “Os bispos foram presos por levarem US$ 56 mil em dinheiro vivo para os Estados Unidos. Eles declararam às autoridades alfandegárias que traziam US$ 10 mil, que é o limite imposto pela lei americana. Hernandes e Sônia têm residência em Miami e outros bens nos EUA, e respondem a processo por evasão de divisas e lavagem de dinheiro - o que estende as investigações até aos órgãos de inteligência americanos.” (In: , acesso em 22/05/2012 às 16:14 hs.).
[11] “No início de 1999, Caio Fábio confessou um caso extraconjugal (adultério) com a secretária com quem trabalhava desde 1983. Na época, era casado com a Alda Maria Fernandes d'Araújo há 23 anos, mas o casamento estava abalado, agravado por causa do Caso Dossiê Cayman” (In: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Caio_F%C3%A1bio_D%27Ara%C3%BAjo_Filho>, acesso em 22/05/2012 às 16:21). Cf. Também o artigo “A volta do pecador” de Roberta Paixão (In: < http://veja.abril.com.br/171199/p_168.html>, acesso em 22/05/2012 às 16:25 hs.).
[12] I fear that the behavior of the present generation of Christian leaders is such that we are going to give the next generation a very poor example of godliness. If we do not arrest this trend, we could be responsible for an outbreak of cynicism in the younger generation, where doctrines are not honored anymore because the leaders of the early generation did not adorn the doctrine with holy lives (Tit. 2:10).
[13] Sanders (1985, p. 32) declara: “É aceito, em geral, que as duas palavras usadas para os líderes da igreja – bispos e presbíteros – eram aplicadas a mesma pessoa. Presbítero (ancião) referia-se à sua dignidade e status, enquanto bispo relacionava-se à sua função, ou deveres. Em outras palavras, uma palavra referia-se à pessoa, a outra, ao trabalho. Esta interpretação é sustentada por passagens como Atos 20:17 e 28, em que Paulo se dirige às mesmas pessoas, primeiro como presbíteros, e depois, como bispos. O significado atual de bispo é uma transformação muito posterior.” (Cf. também MACARTHUR JR, 1991, p. 85).
[14] One area where most credobaptists and most paedobaptists agree is this: Baptism is the sign and seal of the new covenant, inaugurated by Christ’s death and resurrection, signifying the promise for the one baptized that sins are forgiven, that new life in Christ is received, and that God gives the person a new heart and the indwelling Holy Spirit, by faith.
[15] […] baptism is a sign of faith, but it is in addition a sign of what that faith is trusting in!
[16] The end is given for which we should approach the Table of the Lord: “Do this in remembrance of Me.” Whenever we celebrate the Lord’s Supper, we commemorate the Lord’s death.
[17] It is according to the mind of Christ that believers in the Lord’s Supper should make particular application of Himself, and of the fruits of His death and sufferings, to themselves.
[18] A believer may take the bread and say, “The Lord Jesus died for me.” And he may take the wine and say, “Christ Jesus shed His blood for me.”

sábado, 3 de março de 2012

Reflexões sobre a igreja contemporânea




É algo natural em nossa época ao falarmosde idolatria, vermos pessoas se vangloriando de abandonar o catolicismo para setornar um evangélico. Não há imagens, crucifixos, velas etc. Não frequento mais missa, “conheço muitos louvores tremendos” e tenho um ministério poderoso de cura para as nações; idolatria, nunca mais, diz o neófito com dez anos de “fé”!

Em meio a tantos encontros de três dias, tantas unções e “palavras proféticas”, o indivíduo se enche de uma certeza inabalável que conhece o Senhor mais do que aquele cristão “frio” que apenas fala da bíblia, intransigente e criterioso. Nesse homem não se vê pulos, não há risos com uma pregação cheia de piadas, ele não entra na onda do cair no espírito (não acha razões bíblicas suficientemente fortes para isso), as músicas evangélicas populares de Top Ten, são, para ele, aguadas de conteúdo bíblico e doutrina fiel. É difícil encontrar alguns desses andando por aí. Eles não se encontram nas marchas para Jesus, emporcalhando a cidade e tornando o trânsito um inferno, muito menos, nós o veremos dando ibope as redes de televisão aberta, pois ninguém gosta de sua mensagem, ele é intragável!

Por que isso acontece? Simples, a cultura de crentes formados em solo brasileiro é idolátrica até a alma! Sim, o evangelicalismo brasileiro é idólatra, pernicioso e doente.
Até pouco tempo, o cristão era visto como alguém que não era aplaudido pela mídia, recebia preconceitos por cada pronunciamento seu ser acompanhado por dois ou três versículos, era um corpo estranho na sociedade, o inferno e a ira era a pregação impopular que ameaçava ao ímpio endurecido. Jesus te ama, era bem o que os pecadores queriam ouvir, mas esses homens não os ajudavam a se sentirem melhor com esses clichês. As músicas falavam sobre a espada da lei, logo, não podiam ganhar o Grammy Latino. Encharcadas de bíblia, as almas cantavam grandioso és tu, pois, meditavam nessa verdade de Genesis a Apocalipse. Nesse tempo os pastores não trocavam de carro todo ano à custa dos fiéis, mas a bíblia era ensinada completamente, ele lutava consigo mesmo durante dias estudando e orando ao Senhor por apenas um sermão. Doutrinas eram expostas, e, o coração da ovelha caída era enternecido pelas palavras de vida eterna, pela visitação pastoral e pela oração sobrecarregada de seus irmãos. A justificação pela fé e a salvação pela graça eram temas conhecidos e decorados pelas crianças, assim podiam cantar capítulos inteiros da bíblia até a sua mocidade.

A prática dos cristãos modernos e populares é exatamente oposta, ideológica e moralmente, dessa antiga geração de cristãos fiéis. Negligenciam descaradamente a palavra de Deus em nome de um “tanto faz”, deixa assim mesmo ou “quem somos nós para julgarmos”? Uma geração de crentes com anos de igreja sem ter lido a bíblia toda. O culto familiar foi abandonado, e, as crianças se tornaram em depósitos de ensinamentos e cânticos mais fracos do que a pregação-teatro-jogral-ministração-unções que é feita no templo no templo domingo após domingo, campanha após campanha. O teatro usurpou a pregação e fez que a mensagem fosse mais “relevante” aos bodes, ainda que se abrisse um pouco a bíblia para falar algo, isso seria apenas para desencargo de consciência, mas não alimentava o suficiente. Embora se desconfiem que existam práticas estranhas e místicas, a ditadura do líder fundador, faz a mente preguiçosa do crente alienado, relaxada e apta a não usar o discernimento bíblico.
A verdade é que tudo está estampado diante do mais simples crente, mas, as escamas da alienação, não permitem que a luz brilhe. Algum cantor (a) famoso se “converte”, rapidamente grava mais um cd e dá uma guinada em sua vida pública que antes estava esquecida, e, com seu testemunho, arrecada milhares de reais gastos em hotéis e cruzeiros de luxo, fazendo assim a “obra” de Deus.

Se isso não é idolatria e paganismo camuflado de piedade, então, o evangelho puro e simples de Cristo, pregado e vivido pela igreja primitiva, é falso. Mas o só pensar nisso é blasfêmia! Viver segundo o que o “apóstolo” diz e não julgá-lo pela bíblia, andar amarrando tudo que é demônio inventado por aí, sem parar para examinar nas escrituras, profundamente, cada uma dessas coisas, é desprezar a Palavra da maneira mais vil e religiosa possível, é odiar a Deus com as mãos levantadas, pensado que está fazendo o bem. Fazer o que se pensa que é certo, utilizando a si mesmo como o padrão, e, não a bíblia, através do estudo diligente desta, é profanação da pior espécie.

Que Deus tenha misericórdia dessa geração.

Amem!
Fortaleza- CE, 03 de março de 2012
Evandro C. S. Junior

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O TEÍSMO ABERTO E AS SAGRADAS ESCRITURAS

MESQUITA NETO, Nelson Ávila (E. T. C. S.).

1 INTRODUÇÃO

O Tesísmo Aberto, ou “Teologia Relacional”, como é conhecido no Brasil, foi motivo de acentuado debate à alguns anos, em virtude da aderência a esta corrente teológica por parte de alguns pastores que gozavam de relevante popularidade e influência.

Embora o movimento não tenha saboreado a receptividade esperada, arrefecendo após angariar numerosas críticas das posições históricas (calvinismo e arminianismo), as quais, ainda que conflitantes, uniram-se a fim de refutar aquela, o Teísmo Aberto permanece vivo no ambiente eclesiástico e acadêmico, tendo demonstrado, principalmente em seus pronunciamentos nesta última esfera, bastante produtividade, como comprovam os livros e artigos de seus proponentes que continuam a proliferar-se ano após ano.

Assim sendo, cremos fazer-se indispensável uma exposição, ainda que breve, de sua proposta, afim de constatarmos se esta apresenta-se como uma abordagem teológica sadia, que merece ser estudada e considerada como genuína alternativa bíblica para os temas a que se propõe responder, ou se deve ser rejeitada e combatida com intrepidez, por revelar um caráter não-bíblico e ofensivo ao Deus da Revelação.

Principiaremos apresentando aquilo que parece ser a base sob a qual se fundamenta a visão aberta de Deus, prosseguindo através de uma síntese das principais características que compõem o ensino geral do Teísmo Aberto. A partir daí, veremos algumas proposições teológicas e filosóficas que claramente influenciaram na formulação de seu pensamento, para logo em seguida abordarmos seu desenvolvimento prático, findando com o indispensável escrutínio bíblico da matéria em questão.

2 O TEÍSMO ABERTO E O AMOR DE DEUS: O ATRIBUTO EXALTADO

Deus é amor! Este tem sido o maior slogan cristão dos nossos tempos. Sem dúvida, Deus é amor! É maravilhoso saber que entre Seus atributos encontra-se o amor. Assim como Deus é imutável (“Porque eu, o Senhor, não mudo” [Ml 3.6[1]]) e Eterno (Gn 21.33; Dt 33.27; Jr 10.10), Ele “é amor” (1 jo 4.8), e por isso podemos confiar e nos alegrar na palavra que diz: “com amor eterno eu te amei”(Jr 31.3). Desde o princípio Deus era e continuará sendo pelos séculos dos séculos o “Deus de amor” (2 Cor 13.11); Ele não ama hoje e amanhã deixa de amar. Seu amor permanece inabalável a preencher os recipientes de Sua misericórdia. Ou, nas palavras de Bavinck (2001, p. 150), “Esse amor não é sujeito ao tempo e ao espaço, mas está acima tanto de um quanto de outro, e vem da eternidade para o coração dos filhos de Deus”.

Deus é perfeito e o amor é uma das perfeições de Seu caráter. Deus não pode ser mais amoroso, ou menos amoroso, pois de outra forma Ele não seria perfeito; haveria algo ainda a ser melhorado, ou acrescentado, ao Ser de Deus. Portanto, Deus ama na medida certa. Contudo, quanta confusão se tem levantado sempre que se eleva um dos atributos de Deus acima dos demais. Por exemplo: através da ênfase na Onipresença e na Imanência de Deus, chegou-se ao Panteísmo, onde Deus (um ser impessoal) e o cosmos são indistintos. Sendo assim, Deus é tudo e tudo é igualmente Deus. Do mesmo modo, através da ênfase na Transcendência divina, chegou-se ao agnosticismo, onde qualquer conhecimento acerca da Divindade torna-se plenamente impossível. Da ênfase na Onipotência e Onisciência, originou-se o Fatalismo mórbido, que coloca o homem na condição de um ser passivo e inerte, negando-lhe qualquer tipo de responsabilidades. Mesmo que seja o amor, um dos considerados mais sublimes atributos de Deus, este também não pode ser colocado acima, como gerenciador, dos demais atributos do Ser de Deus, pois todos eles coexistem igualmente. No entanto, a ênfase no amor de Deus tem sido marca registrada desta geração e tem trazido drásticas conseqüências para a igreja. O “Teísmo Aberto” é inquestionavelmente marcado por esta ênfase.

3 O QUE ENSINA O TEÍSMO ABERTO?

Em síntese, o “Teísmo Aberto” (ou “Teologia Relacional”) ensina que, por amor, Deus trouxe à existência criaturas e quis relacionar-se com elas, mas, para que este relacionamento fosse verdadeiro, estas pessoas precisavam ser totalmente livres; por isso, Deus, em amor a este relacionamento, abriu mão de Sua soberania, erguendo-se do trono do universo e unindo-se aos agentes livres que criou, para juntamente com Eles construir o futuro. Deus também deixou de lado Sua Onisciência, pois, não haveria um relacionamento de fato livre se ele soubesse o que faríamos amanhã, por isso, Deus poderia saber tudo acerca do passado e do presente, mas não do futuro. Na verdade, o conceito de onisciência é redefinido por esta visão. Como expressa Pinnock, um dos maiores propagadores da visão aberta de Deus:

Vemos o futuro não como totalmente estabelecido, e isto, é claro, relata os riscos que Deus encara no futuro. Nossa segurança advém, não da crença de que Deus conhece tudo exaustivamente (uma visão que questionamos biblicamente), mas da crença que ele tem a sabedoria para lidar com qualquer surpresa que se levante (apud REYMOND, 2011, p. 347).

Este relacionamento também continuaria não sendo livre se Deus interferisse nas atitudes livres de Suas criaturas sempre que algo não saísse de acordo com Seus planos, por isso Deus mutilou Sua Onipotência, podendo tudo, mas nada fazendo sem consentimento prévio de todos os agentes livres envolvidos na situação.

4 O TEÍSMO ABERTO E SUA ORIGEM

Uma boa pergunta a se fazer seria: como os proponentes desta corrente teológica chegaram a estes conceitos? Alguns de seus partidários afirmam veementemente que tais concepções são fruto de profunda reflexão filosófico-teológica, o que garantiria a originalidade da perspectiva. Na verdade, um de seus congressos no Brasil chegou a receber o tema: “Um Novo Deus no Mercado”. Contudo, uma breve retrospectiva nos mostrará que o ensino do Teísmo Aberto encontra precedentes em velhas propostas refutadas a muito pelo cristianismo histórico.

4.1 O teísmo aberto e a filosofia grega

De acordo com Lopes (2008, p. 12), “Algumas das idéias da Teologia Relacional têm uma impressionante semelhança com as especulações dos filósofos gregos”, como por exemplo, “o livre-arbítrio libertário” que traz “a idéia de que o arbítrio humano é completamente independente de forças externas e internas e, portanto, totalmente livre em tomar decisões. Isso ocorre porque o mundo e a história são governados pelo acaso”.

Há também o conceito da “limitação de Deus”. “Os deuses da mitologia grega, cantados na Odisséia e na Ilíada de Homero, são concebidos como seres finitos e limitados, que não governam o mundo de acordo com sua vontade, mas espreitam os homens e suas decisões, intervindo algumas vezes” (LOPES, 2008, p. 12).

Por fim, Lopes cita “o conceito de um futuro aberto e indeterminado” onde “encontramos a idéia de um mundo autônomo, funcionando por si mesmo, já que não havia deuses que determinassem seu curso, e visto que as decisões humanas eram imprevisíveis”. Tais idéias, como esposadas acima, “[...] podem ser encontradas em filósofos como Tales, Epicuro, Platão e Aristóteles, para mencionar alguns” (LOPES, 2008, p. 13), e mantêm plena correspondência com a visão aberta de Deus.

4.2 O teísmo aberto e o arminianismo

Apesar de tantas semelhanças entre os conceitos do Teísmo Aberto e da filosofia grega, para Lopes, “A maior influência na Teologia Relacional, sem dúvida é o arminianismo” (2008, p. 13). Segundo ele:

Podemos afirmar inclusive que ela é um desenvolvimento lógico do arminianismo, ou ainda, o arminianismo levado às suas últimas consequências [...] O ponto central do arminianismo é que a salvação depende da decisão humana. É o homem, com seu livre-arbítrio, quem decide o seu futuro e, portanto, o futuro da raça humana. A salvação foi dada por Deus mas ela só é eficaz se o homem decidir aceitá-la.” (LOPES, 2008, pp. 13, 15)

Em seu livreto “Os cinco pontos do calvinismo”, Seaton (pp. 3, 4) faz distinção entre a visão calvinista e a arminiana, relacionando os cinco pontos do arminianismo da seguinte maneira: “1. Livre-arbítrio, ou capacidade humana [...] 2. Eleição condicional [...] 3.Redenção universal, ou expiação geral [...] 4. A obra do Espírito Santo na regeneração limitada pela vontade humana [...] 5. Cair da graça”. A este respeito, Lopes (2008, p. 15.) escreve: “A Teologia Relaconal concorda com praticamente todos os pontos da interpretação arminiana da salvação com exceção daquele que fala da presciência de Deus [eleição condicional], que Deus anteviu a escolha dos que haveriam de ser salvos”.

4.3 O teísmo aberto e o socinianismo

De acordo com Lopes (2008, p. 16), Socinianismo “[...] é o nome que se dá a outra corrente teológica do século XVI originada nas idéias dos italianos Lélio Socínio (1525-1562) e seu sobrinho Fausto Socínio (1539-1604)” os quais “[...] negavam em seus escritos a deidade de Cristo, Sua morte vicária na cruz e a imputação da Sua justiça aos pecadores arrependidos. Suas idéias eram tão heréticas que foram condenadas pelos católicos e pelos protestantes”.

A similaridade entre estas duas visões é justamente o trato dispensado para com a presciência divina.

[...] Lélio e Fausto argumentaram que os calvinistas estavam, a princípio, logicamente corretos em dizer que o conhecimento que Deus tem do futuro se baseia no fato que o próprio Deus havia determinado tudo o que vai acontecer. Deus sabe as coisas que vão acontecer porque Ele mesmo determinou essas coisas. Todavia, eles prosseguiram a argumentar que os arminianos estão corretos quando dizem que é inadmissível pensar que Deus determinou tudo que vai acontecer, pois isso anula a liberdade humana. Logo, para que se possa preservar a plena liberdade do homem, é preciso negar não somente que Deus preordenou as decisões livres de agentes livres, mas também que Deus conhece de antemão quais serão tais decisões. E assim, os socinianos foram além do calvinismo e do arminianismo, negando a soberania de Deus (calvinistas) e também a Sua presciência (arminianos) [...] É exatamente esse o ensino da Teologia Relacional quanto à presciência de Deus [...] A semelhança é notável, até mesmo nos detalhes. Os socinianos diziam que a onisciência de Deus significava que Deus conhecia tudo o que era possível de ser conhecido. Como as decisões livres dos seres humanos eram impossíveis de serem conhecidas – exatamente porque eram livres – Deus não podia ter conhecimento delas. Os teólogos relacionais argumentam da mesma forma, redefinindo a onisciência de Deus de maneira similar” (LOPES, 2008, pp. 16, 17, 18.).

A conclusão é óbvia: “Se o homem tem livre-arbítrio e as coisas podem ser diferentes, Deus não pode ser onisciente” (CLARK, 2010, p. 52). Socinianos e Teístas Abertos preferiam resguardar a liberdade humana em detrimento da onisciência divina.

4.4 O teísmo aberto e a teologia do processo

O Teísmo Aberto também possui laços mais fortes do que gosta de admitir com a corrente teológica que atende pelo nome de Teologia do Processo.

Existe [...] uma semelhança visível entre a relação de Deus com o tempo defendida pela Teologia Relacional e aquela da Teologia do Processo. É verdade que os teólogos relacionais criticam a Teologia do Processo; todavia, não conseguiram se distanciar o suficiente para evitar a sua influência [...] De acordo com o cristianismo clássico, o Deus eterno criou o tempo e vive fora dele. Dessa forma, ele pode contemplar simultaneamente o passado, o presente e o futuro, como se fossem janelas ou telas abertas diante dEle. A Teologia do Processo nega esse conceito e defende que a realidade está em processo de mudança constante e que Deus evolui e progride dentro dessa realidade. Os teólogos relacionais admitem que Deus vive no tempo, mas discordam que isso faça parte essencial da Sua existência. Afirmam que ele optou por viver no tempo para poder Se relacionar de forma amorosa e significativa com Suas criaturas [...] apesar das críticas à Teologia do Processo, a Teologia Relacional afirma que Deus vive dentro do tempo, sujeito ao passar do tempo e às mudanças que isso proporciona. Ao final, temos de lidar com um Deus que, à nossa semelhança, aprende e evolui com o passar do tempo e não pode saber com exatidão o que nos aguarda no futuro. (LOPES, 2008, pp. 19,20).

Percebe-se com isso que o atributo divino da imutabilidade é completamente ignorado, prejudicando assim a perfeição da deidade, pois, como tem sustentado a ortodoxia cristã ao longo dos séculos, “Se o ser de Deus possui toda a perfeição possível, então qualquer mudança nele deve ser para a pior. Por ser imutável, não pode piorar. E por deter toda a perfeição, ele não tem necessidade de se alterar ou passar por um desenvolvimento” (CHEUNG, 2008, p. 84). Estariam os defensores da visão aberta e da teologia do processo dispostos a sustentar a idéia de que o deus a quem cultuam, em virtude de seu desenvolvimento, pode estar pior hoje do que a dois mil anos atrás? Tal possibilidade deve ser admissível em seus sistemas de pensamento.

Outra semelhança é “[...] a crítica de que a teologia cristã clássica foi influenciada por idéias da filosofia grega quanto a formulação da doutrina de Deus” (LOPES, 2008, p. 21), o que constitui grande ironia, já que o Teísmo Aberto, como supracitado, importa para seu corpo doutrinário uma gama de conceitos da visão grega. Ambas as posições, Teologia do Processo e Teísmo Aberto, defendem também:

[...] uma reformulação da doutrina clássica a respeito de Deus. A onisciência de Deus deve ser entendida como Seu conhecimento de tudo que pode ser conhecido – menos o futuro que ainda não aconteceu. A onipotência é entendida como poder perfeito, mas Deus não tem monopólio dele. Ele tem todo o poder possível a um ser. Não que Seu poder seja ilimitado. Ele é somente o maior. Portanto, Deus nunca pode determinar um evento, ou que alguma coisa aconteça irreversivelmente. Seu poder é coercivo, nunca determinativo. Todas essas idéias são também defendidas pelos teólogos relacionais” (LOPES, 2008, pp. 21, 22).

5 ASPECTOS PRÁTICOS DO TEÍSMO ABERTO

Veja o Deus de amor do Teísmo Aberto em ação. Imagine a cena: um homem viciado em crack sai pelas ruas com uma arma na mão; ele quer mais dinheiro para sustentar seu vício. Numa rua sem movimento e mal iluminada, uma jovem caminha rumo à estação de metrô. Ela se atrasou no trabalho e saiu mais tarde que o habitual. O encontro é inevitável e Deus assiste tudo. Repentinamente, o homem saca a arma. A jovem tenta fugir e ele dispara. Ela cai morta e ele vai embora com o dinheiro, encerrando assim o trágico episódio.

Segundo o Teísmo Aberto, Deus nada podia fazer, pois, se o fizesse, violaria a liberdade (livre-arbítrio) daqueles agentes livres. Deus não sabia o que aconteceria, pois haviam muitas ações livres implícitas na questão e tudo o que Deus conhece são as possibilidades. Aquilo machucou profundamente o coração de Deus e ele certamente estava torcendo para que nada de mal acontecesse, mas não havia nada que Ele pudesse fazer, senão lamentar angustiadamente. “E quanto ao propósito? Deve haver algum propósito em todo este caso lamentável.” – alguém perguntaria. O deus do Teísmo Aberto diz: “Não! Foi tudo uma fatalidade”.

Bruce A. Ware (2010, pp. 13, 14), ilustrando a visão do “Teísmo Aberto” acerca do sofrimento, escreve:

Quando a tragédia entrar em sua vida, por favor, não pense que Deus tem algo a ver com isso! Deus não deseja que a dor e o sofrimento ocorram e, quando isso acontece, ele se sente tão mal com a situação como aqueles que estão sofrendo. Não pense que, de alguma maneira, essa tragédia deva cumprir algum propósito final. É bem possível que não seja assim! O mal que Deus não deseja acontece a todo momento e, com freqüência, não serve para nenhum bom propósito. Porém, quando sobrevém a tragédia, podemos confiar que Deus está conosco e nos ajuda a reconstruir o que se perdeu. Afinal, de uma coisa temos certeza, a saber: Deus é amor. Então, embora não possa evitar que uma boa parcela de coisas ruins aconteça, ele sempre estará conosco quando elas acontecerem.

6 O TEÍSMO ABERTO VERSUS A SAGRADA ESCRITURA

Será que a Bíblia se engana ao relatar o episódio de Atos 4.27-28? “De fato, Herodes e Pôncio Pilatos reuniram-se com os gentios e com o povo de Israel nesta cidade, para conspirar contra o teu santo servo Jesus, a quem ungiste. Fizeram o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse” (NVI).

Não lemos aqui que todo o sofrimento que sobreviera a Jesus fora determinado por Deus? Deus estava por trás de tudo isso, inclusive das ações, supostamente “livres”, dos ímpios. Como Pink (2001, p. 28) bem expressou:

Deus sabia da crucificação do Seu Filho e a predisse muitas centenas de anos antes que Ele se encarnasse, e isso, porque, segundo o propósito divino, Ele era o Cordeiro morto desde a fundação do mundo. Portanto, lemos que Ele “... foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus...” (Atos 2:23).

É importante destacar aqui que tal acontecimento não fora destituído de propósito, mas pelo contrário, foi por meio deste sofrimento que recebemos a salvação!

E o que dizer sobre o diálogo entre Deus e Ananias a respeito do apóstolo Paulo? Conforme Atos 9.15-16, lemos: “Mas o Senhor disse a Ananias: ‘Vá! Este homem é meu instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e seus reis, e perante o povo de Israel. Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome” (NVI). Como, pela visão do “Teísmo Aberto”, responder a passagens como essas sem desrespeitar (ou até mesmo violentar) o texto bíblico? Só podemos afirmar com Ware (2010, p. 21) que:

A visão aberta rebaixa Deus, pura e simplesmente falando. Tenta tornar mais significativa a escolha e ação humanas, a custa da própria grandeza e glória de Deus. O Deus do teísmo aberto é muito limitado, simplesmente por ser menos que o majestoso, pleno conhecedor, todo-sábio Deus da Bíblia.

O deus do Teísmo Aberto não sabe e não pode. Está cego quanto ao futuro. Tem a boca fechada e as mãos amarradas para não interferir nas livres escolhas (livre-arbítrio) de seus agentes livres. Está limitado pelo poder das suas criaturas.

O Teísmo Aberto tira o controle remoto do mundo das mãos de Deus e o coloca nas mãos dos homens. É o antropocentrismo entronizado. É um deus extremamente debilitado e não o Deus das Escrituras, sobre o qual lemos: “Porque o domínio é do Senhor, e ele reina sobre as nações” (Sl 22.28); “Mas o nosso Deus está nos céus; ele faz tudo o que lhe apraz” (Sl 115.03). Sobre Sua onisciência: “[...] Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade” (Is 46. 9,10). Eis aqui mais uma visível distinção, pois, o Deus das Escrituras “[...] reivindica para Si a presciência sobre os acontecimentos futuros, desafiando os deuses falsos (Is. 41:22)” (DAGG, 2003, p. 53), enquanto o Deus do Teísmo Aberto permanece na ignorância. Como disse C. S. Lewis (2008, p. 226): “Todos que crêem em Deus acreditam que ele sabe o que eu e você faremos amanhã”.

Buscando resguardar a plena liberdade da criatura, a visão aberta de Deus acaba restringindo a liberdade do Criador. É exatamente neste ponto que o Teísmo Aberto mais uma vez se mostra deficiente, pois em lugar algum nas Escrituras lemos sobre uma criatura plenamente independente de seu Criador. Para sustentar tal coisa, Clark (2010, p. 53) afirma que a própria “[...] doutrina da criação deve ser abandonada”, pois, “Uma criação ex nihilo estaria completamente no controle de Deus”, visto que “Forças independentes não podem ser forças criadas, e forças criadas não podem ser independentes”. Sendo assim, mesmo a Revelação Geral é suficiente para mostrar a necessidade de um Deus Soberano e sustentador de todas as coisas (Heb. 1:3).

Reymond (2011, p. 354), por exemplo, baseado nos estudos em biometereologia de Sallie Tisdale (“Weather’s Unseen Power”, Outside [Dezembro 1995]) aponta para o fato de como o clima, o qual é mantido e determinado por Deus (Gên 8:22), pode influenciar os seres vivos, inclusive em suas decisões, e então escreve (em resposta a doutrina do livre-arbítrio sustentada por Pinnock):

[...] assumindo, novamente por causa do argumento apenas, que a vontade do homem seja normalmente livre, mesmo Pinnock não negará que causas desconhecidas a eles podem influenciar e mesmo forçar pessoas a escolherem um ao invés de outro curso de ação. O clima, por exemplo, – no mínimo, às vezes desconhecido para nós – afeta como sentimos, o que, por sua vez, influencia nossas escolhas. Doenças presentes em nosso corpo das quais estamos inconscientes (por exemplo, tumores cerebrais) podem nos levar, enquanto presumimos o tempo todo nossa sanidade, a tomar decisões irracionais. Os pais, muito tempo depois de mortos, através de seus ensinos e exemplos em nossos anos de formação, freqüentemente agora, sem que estejamos cientes disso, ainda exercem uma poderosa e determinante influência sobre nós em nossos anos adultos (Prov. 22:6). O problema que se levanta é este: como pode qualquer homem conhecer com certeza, quando escolhe um curso específico de ação, que era completamente livre de todas estas causações externas ou internas? [2]

A este respeito, Clark (apud REYMOND, 2011, p. 354) declara:

A conclusão é evidente, não é? Para sabermos que nossa vontade não é determinada por qualquer causa, devemos conhecer todas as causas possíveis no universo inteiro. Nada poderia escapar de nossas mentes. Ser consciente do livre-arbítrio, portanto, requer onisciência. Desde que não há consciência do livre-arbítrio: o que seus expoentes tomam como consciência do livre-arbítrio é simplesmente a inconsciência do determinismo. [3]

No século XVI, Lutero travou sua própria batalha quanto à questão do livre-arbítrio. Pink (2001, p. 39) registra que “Numa de suas cartas a Erasmo, disse Lutero: ‘As tuas idéias sobre Deus são demasiado humanas”. Podemos dizer a mesmíssima coisa no que se refere à teologia sustentada pelo Teísmo Aberto.

Portanto, O deus do Teísmo Aberto só nos deixa o desespero, pois um deus que não seja o “Todo-Poderoso” que “reina” (Ap 19.6; 15.3 - ó Rei dos séculos) e conhecedor de “todas as coisas” (1 Jo 3.20 - inclusive “as coisas que ainda não sucederam” - Is 9.10]) não é digno de confiança nem tem autoridade para fazer cumprir suas promessas. “Quanto à visão aberta, só se pode dizer o seguinte: ‘O Deus deles é limitado demais!’” (WARE, 2010, p. 20).

Como Pink (2001, pp. 40, 41) escreveu, “Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustrados, cujo propósito é derrotado, nada possui que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo”.

7 CONCLUSÃO

Concluímos, por tudo que foi apresentado até aqui, que o Teísmo Aberto confronta as doutrinas basilares do cristianismo histórico, contradizendo o claro ensino das Escrituras e apresentando uma perspectiva acerca de Deus que está muito aquém daquela sustentada pela ortodoxia cristã.

Deus disse a Moisés: “Eu Sou o que Sou” (Ex 3.14), e é assim que devemos adorá-Lo; não tentando fazer de Deus aquilo que Ele não é ou o que queremos que Ele seja. Continua pertinente e atual a acusação de Pink de que: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem “deuses” de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais” (PINK, 2001, p. 40).

Devemos atentar para o fato de que aquele que adora outros deuses, por mais amorosos que possam parecer estes outros deuses, está sujeito ao juízo do Senhor, que diz: “Certamente perecerá” (Dt 8.19), e o “profeta que tiver a presunção de falar [...] em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” (Dt 18.20).

“Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). Este é o mandamento mais quebrado e o pecado mais cometido em nossa geração. O Teísmo Aberto tem sido responsável por estimular e propagar tal pecado, devendo ser rejeitado como a teologia de um outro “deus”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAVINCK, H. Teologia Sistemática. Santa Bárbara d’Oeste: Socep, 2001.

CHEUNG, V. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Arte Editorial, 2008.

CLARK, G. H. Deus e o Mal: o problema resolvido. Brasília: Editora Monergismo, 2010.

DAGG, J. L. Manual de Teologia. São José dos Campos: Fiel, 2003.

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

LOPES, A. N. Teologia Relacional: Suas origens, seus ensinos, suas conseqüências. São Paulo: Ed. PES, 2008.

PINK, A. W. Os Atributos de Deus. São Paulo: Ed. PES, 2001.

REYMOND, R. L. A New Systematic Theology of the Christian Faith. Nashiville: Thomas Nelson, 2011.

SEATON, W. J. Os Cinco Pontos do Calvinismo. São Paulo: Ed. PES.

WARE, B. A. Teísmo Aberto: a teologia de um deus limitado. São Paulo: Vida Nova, 2010.


[1] Os textos bíblicos utilizados aqui foram extraídos, em sua maioria, de BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. rev. e atual. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. Aqueles que divergirem desta tradução serão devidamente identificados.

[2] But assuming, again For the sake of argument only, that man’s will is normally free, even Pinnock will not deny that causes unknown to them can influence and even force people to choose one rather than another course of action. The weather – at least sometimes unknown to us – affects how we fell, for instance, which in turn influences our choices. Diseases present in our body of which we are unaware (for example, brain tumors) can cause us, while we presume all the while our sanity, to make irrational decisions. Parents long dead, through their teaching and example in our formative years, often now without our being aware of it, still wield a powerful determining influence upon us in our adult years (Prov. 22:6). The problem that arises is this: How can any man know for sure, when he has chosen a specific course of action, that he was completely free from all such external or internal causation?

[3] The conclusion is evident, is it not? In order to know that our wills are determined by no cause, we should have to know every possible cause in the entire universe. Nothing could escape our mind. To be conscious of free will therefore requires omniscience. Hence there is no consciousness of free will: what its exponents take as consciousness of free will is simply the unconsciousness of determinism.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O MARCIONISMO E O CÂNON

MESQUITA NETO, Nelson Ávila (E, T. C. S.)

1 INTRODUÇÃO

Voltaremos nossa atenção neste trabalho para o movimento cismático oriundo do segundo século que ficou conhecido como Marcionismo. Explanaremos os desafios gerados a partir das idéias de Marcião e suas conseqüências para a cristandade de então.

Principiaremos com uma apresentação das principais características do pensamento marcionita, e em seguida abordaremos o modo como a igreja reagiu diante desta nova situação.

Sabemos que de tempos em tempos velhas idéias, que a muito pareciam mortas ou adormecidas, costumam reaparecer, com maior ou menor força, travestidas de um espírito de originalidade em busca de novos adeptos. Objetivamos com o presente estudo prevenir os cristãos contemporâneos contra estes erros teológicos que, embora pareçam distantes e insustentáveis na presente era, ainda podem facilmente ser percebidos em certa medida, nos discursos de muitos líderes da atualidade.

2 O PENSAMENTO MARCIONITA

O nome Marcionismo deriva de seu fundador, Marcião (110 – 160 d. C.), ou Márciom como pode ser encontrado em alguns livros de história. Este, “[...] era filho do bispo de Sinope, na região do Ponto” (GONZÁLES, 2009, p. 98), todavia passou a sustentar uma posição teológica bem diferente da ortodoxia cristã, o que o levou a ser excomungado no ano 144 d. C.

Sobre este período, Gonzáles (2009, p. 99) escreve: “No ano 144, Márciom foi a Roma, onde conseguiu vários seguidores, e até alguns pensaram em fazê-lo bispo. Mas com o tempo, o resto dos cristãos decidiu que seus ensinos contradiziam a fé, e Márciom criou sua própria igreja, que perdurou por vários séculos”.

Segundo Hägglund (2003, p. 28), a doutrina de Marcião “[...] é similar ao gnosticismo em vários pontos”, o que teria levado a sua inclusão “[...] entre os gnósticos pelos Pais Eclesiásticos”. A este respeito, Cairns (2008, p. 84) diz que “Marcião e seus seguidores parecem ter sido os mais influentes dos grupos ligados ao gnosticismo”.

No que diz respeito a seu ensino, Marcião “[...] parece ter sentido duas fortes antipatias: contra este mundo material e contra o judaísmo. Portanto, sua doutrina combina estes dois elementos” (GONZÁLES, 2009, p. 99). Conforme Cairns (2008, p. 84), “Por entender que o judaísmo era mau, odiava a Bíblia Hebraica e o Javé nela apresentado”, chegando a “[...] estabelecer um contraste radical entre o Antigo e o Novo Testamento” (GRANCONATO, 2010, p. 75).

Marcião sustentava uma visão dualista em sua teologia. Para ele, Jeová, o Deus dos hebreus, era “[...] um ser mau e vingativo, desejoso de guerras, inconstante nos sentimentos, criador da matéria, autor do mal e originador da Lei” (GRANCONATO, 2010, p. 76), tendo outros dois planos abaixo de si, onde encontravam-se os anjos e a matéria. Porém, havia ainda um Deus bom e verdadeiro, o Pai de amor revelado em Jesus, o qual ficava num plano superior ao de Jeová. Para Marcião, conforme registrado por Gonzáles:

Foi Jeová que fez este mundo. O propósito do Pai não era que houvesse um mundo como este, com todas as suas imperfeições, mas que houvesse um mundo puramente espiritual. Mas Jeová, seja por ignorância ou por maldade, fez este mundo, e nele colocou a humanidade (2009, p. 99).

Como seu entendimento, seguindo as concepções gnósticas, era o de que a matéria era má, ele interpretava o papel de Cristo na história da redenção como tendo sido enviado pelo Pai e manifestado como homem “[...] para abolir a Lei e os profetas, bem como todas as obras do perverso criador” (GRANCONATO, 2010, p. 76).

Citando o historiador Roque Frangiotti, Granconato (2010, p. 76) nos informa que no conceito Marcionita, Cristo teria se revestido de uma corporeidade apenas aparente, “[...] pois se assumisse a matéria ficaria sob o poder do criador maligno e não alcançaria seu alvo final que era libertar as almas de todos os homens do plano material”. Com isso, além de pregar “[...] a forma mais crua de universalismo”, pois, no conceito Marcionita, como Matos (apud GRANCONATO, 2010, p. 76) bem esclarece, “O Deus verdadeiro perdoa todos os pecados e assim toda a humanidade será salva”, visto que “A salvação é do espírito, não do corpo”, Marcião ainda declara abertamente seu posicionamento Docetista.

Por seus ensinamentos, ele acabou angariado a antipatia de muitos cristãos, dentre eles, alguns memoráveis, como é o caso do respeitável bispo de Esmirna, do qual se lê que “Marcião [...] certo dia, indo ao encontro de são Policarpo, lhe diz: ‘Reconhece-nos, Policarpo!’ Este respondeu a Marcião: ‘Eu reconheço, reconheço o primogênito de satanás.’ (QUINTA, 2002, p. 156).

Além de Policarpo, “Justino, particularmente, revela especial repugnância pelos ensinos desse herege, alistando-o entre os ‘ateus, ímpios, injustos e iníquos’ com quem os cristãos não tinham nenhuma comunhão”, acreditando ainda que “Marcião propagava suas doutrinas com o auxílio de demônios” (GRANCONATO, 2010, p. 75), conforme escreveu:

Por fim, um tal Marcião, natural do Ponto, está agora mesmo ensinando seus seguidores a crer num Deus superior ao criador e, com a ajuda dos demônios, fez com que muitos, pertencentes a todo tipo de homens, proferissem blasfêmias e negassem o Deus Criador do universo, admitindo, em troca, não sabemos que outro deus, ao qual, supondo maior, se atribuem obras maiores do que àquele (JUSTINO apud GRANCONATO, 2010, p. 75).

Para defender sua doutrina, Marcião abandonou toda a revelação Veterotestamentária por consistir, nos moldes de sua compreensão, na palavra de um deus inferior (o Jeová dos judeus), rejeitando ainda aqueles escritos Neotestamentários que discordavam de seus ensinamentos, criando assim seu próprio Cânon, que sustentava como único Evangelho autorizado uma versão do “[...] Evangelho de Lucas (excetuando os capítulos 1 e 2, por serem judaicos demais) e as epístolas de Paulo (menos as epístolas pastorais)” (FISHER In COMFORT, 1998, p.106).

No entendimento marcionita, Paulo era “[...] o único que, entre os apóstolos, havia compreendido a verdadeira mensagem de Jesus”, sendo os demais “[...] judeus demais para entendê-la” (GONZÁLES, 2009, p. 100). Marcião considerava todas as citações do Antigo Testamento encontradas em Lucas e nas cartas paulinas como tendo sido inseridas nos textos sagrados por judaizantes que “[...] tratavam de adulterar a mensagem” (GONZÁLES, 2009, p. 100).

Nas palavras de Gonzáles, outros ensinos negados por Marcião, como pode-se concluir logicamente dos já supracitados, era “[...] a criação, a encarnação e a ressurreição final” (2009, p. 100). Por ter organizado uma igreja independente, “[...] com seus bispos rivais aos da outra igreja”, Gonzáles (2009, p. 100) entende que seus ensinos, portanto, “[...] tendiam a se perpetuarem”.

3 O ATAQUE MARCIONITA E A REAÇÃO DA IGREJA

A teologia de Marcião representou um dos primeiros ataques sérios a autoridade e inspiração das Sagradas Escrituras. Diferentemente dos demais grupos gnósticos, que inventavam “[...] toda uma série de seres espirituais, [...] o que Márciom propôs era muito mais simples” (GONZÁLES, 2009, p. 99), e justamente por suas doutrinas parecerem tão simples e lógicas, “[...] a propaganda marcionita dentro do resto da igreja era impressionante” (GONZÁLES, 2009, p. 100).

É interessante notarmos que a arma utilizada pelos Pais da igreja para reagir à heresia Marcionita fora justamente a reafirmação da Palavra de Deus como única e final autoridade inerrante e infalível.

Nenhuma Escritura é de particular interpretação: A Bíblia “toda” é “todo” o conselho de Deus e podemos chegar ao entendimento de suas partes mais obscuras comparando-as com suas partes mais claras.

Embora não houvesse ainda a preocupação em estabelecer um Cânon como “oficial” para a comunidade, os cristãos do primeiro século faziam uso dos mesmos textos bíblicos que nós hoje (somando a estes os escritos dos Pais apostólicos, que ainda hoje nos servem, embora sem a prerrogativa de inerrância e autoridade), e tinham a firme convicção de que a Verdade é preservada por Deus numa tradição pública e verificável por todos, e esta tradição é resguardada pelos bispos legitimamente instituídos por Deus, tendo sido estes ordenados mediante algum apóstolo ou outros bispos originalmente ordenados por estes mesmos apóstolos.

Quanto ao Antigo Testamento, “[...] todos, exceto os gnósticos e os marcionitas, concordavam que devia fazer parte das Escrituras” (GONZÁLES, 2009, p. 101). Ferreira e Myatt (2007, p. 130) atestam que “os livros do Antigo Testamento protestante já eram aceitos pelos judeus antes do tempo de Jesus”, e acrescentam: “A evidência dos Evangelhos apóia a noção de que o Antigo Testamento usado por Jesus era igual ao que temos hoje”.

No que diz respeito ao Novo Testamento, Ficher (In COMFORT, 1998, p.102) declara que “O princípio que determina o reconhecimento da autoridade dos escritos canônicos do Novo Testamento foi estabelecido dentro do próprio conteúdo desses escritos”. Ele aponta, para comprovação de sua posição, na direção das “[...] repetidas exortações para a leitura pública das mensagens apostólicas” em passagens como 1 Tessalonicenses 5:27 e Colossenses 4:16, por exemplo; e a reinvidicação autoral de comunicadores da Palavra de Deus, que facilmente se pode encontrar em textos como 1 Tessalonicenses 2:13, 1 Coríntios 14:37 e 2 Pedro 3:15-16 (FISHER In COMFORT, 1998, pp.102, 103).

Ferreira e Myatt nos garantem três, dentre alguns dos critérios utilizados no processo gradual de fixação do Cânon, e os dispõem da seguinte maneira: “(1) Apostolicidade. Critério que, em última instância, veio a estabelecer o cânon” (2007, p. 95), e que consistia no fato de que os textos bíblicos, para serem considerados inspirados, deveriam ter sido escritos por um apóstolo ou alguém (companheiro imediato) ligado aos apóstolos.

“(2) Reconhecimento de sua autoridade pela igreja primitiva” (2007, p. 95). Lembrando que a idéia aqui não é a de que uma igreja (concilio) infalível determina o Cânon bíblico, e sim que uma igreja falível, que milita contra o pecado no mundo, é firmada sobre a Palavra de Deus infalível, a qual se apresenta e é reconhecida por esta. Como escreveu Sproul, “[...] a igreja não ‘criou’ o Cânon. A igreja identificou, reconheceu e se submeteu ao Cânon das Escrituras. O termo usado pela igreja em concílio foi recipimus, que significa: ‘nós recebemos’” (apud FERREIRA & MYATT, 2007, p. 129).

Bruce (2010, p.36) também asseverou:

Uma coisa precisa ser afirmada com toda ênfase: os livros do Novo Testamento não se tornaram escritos revestidos de autoridade para a Igreja porque foram formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a Igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a autoridade apostólica, direta ou indireta.

Por fim, “(3) A harmonia com os livros dos quais não havia dúvidas” (FERREIRA & MYATT, 2007, p. 93). Um exemplo deste último é a epístola aos Hebreus, da qual não se sabe a autoria, mas é perfeitamente compatível com a mensagem evangélica (apostólica) do Novo Testamento.

Estes critérios foram de grande valia para os cristãos primitivos, e o reconhecimento oficial dos livros canônicos auxiliou a igreja a lidar com toda sorte de proposições teológicas que surgiram desde então.

CONCLUSÃO

Concluímos, portanto, que, ao sustentar firmemente a autoridade da Palavra de Deus, os cristãos dos primeiros séculos puderam permanecer firmes nos ensinamentos de Cristo e dos apóstolos, e assim manter a igreja longe dos desvios doutrinários ensinados pelo Marcionismo.

Ferreira e Myatt rejeitam como sendo errônea, “[...] A idéia de que o gnosticismo, o marcionismo e o montanismo obrigaram a igreja a fixar o cânon do Novo Testamento” (2007, p. 93). Contudo, podemos afirmar que tais movimentos contribuíram de alguma maneira para a aceleração do processo canônico, e concordar com Ficher (In COMFORT, 1998, p.105) quando diz que “O herético Marcião, com seu ato de definir um cânon limitado para uso próprio (c. 140 d.C.), na realidade instigou os crentes ortodoxos a se manifestarem sobre o assunto”.

Hoje, quando muitos se levantam dentro da própria igreja atacando a autoridade e inspiração das Sagradas Escrituras, como o fazem os adeptos da teologia liberal e neo-ortodoxa, ou selecionam para si uma porção de textos bíblicos que supostamente apóiam suas vãs filosofias e falsos ensinamentos, como no caso dos neopentecostais e carismáticos que constantemente se valem dos mesmos textos fora de contexto para propagarem sua mensagem de prosperidade, a fé na Palavra infalível do nosso Deus deve ser mais uma vez reafirmada para que a luz do Evangelho resplandeça em meio às trevas do evangelicalismo moderno, cada vez mais pragmático, secularizado e, conseqüentemente, apóstata.

É interessante recordar que nunca houve na história da igreja um concílio que tenha se reunido com o objetivo de elaborar uma comissão para investigação da canonicidade dos textos bíblicos, ainda assim, no final do séc. V já não havia qualquer dúvida acerca da inspiração dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Sempre, mesmo que de maneira não oficialmente organizada, existira na igreja cristã um “Padrão” (Cânon)[1] que a guiasse e mantivesse a salvo dos falsos ensinos de satanás e seus mensageiros. Apeguemo-nos, portanto, como fizeram nossos pais espirituais no passado, a este “Padrão” (Cânon) e, frente às mentiras deste mundo corrompido e idólatra, declaremos com Agostinho (apud FERREIRA & MYATT, 2007, p. 91): “O que a minha Escritura diz, eu digo”. Ainda se faz pertinente ouvir o velho conselho de Paulo a Timóteo:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra.” (2 Tim 3.14-17)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento?. São Paulo: Vida Nova, 2010.

CAIRNS, E. E. O Cristianismo Através dos Séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2008.

COMFORT, P. W (Ed.). A Origem da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

FERREIRA, F.; MYATT, A. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

GONZÁLES, J. L. Uma História Ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 2009.

GRANCONATO, M. Eles Falaram Sobre o Inferno: a doutrina da perdição eterna nos primeiros escritos cristãos. São Paulo: Arte Editorial, 2010.

HÄGGLUND, B. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 2003.

QUINTA, M. (Org.). Padres Apostólicos. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 2002.


[1] A palavra Cânon derivada do hebraico, qenéh, e do grego, kanóni, que podem ser traduzidas por “vara de medir, régua ou padrão.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

POLICARPO DE ESMIRNA: Vida e Pensamento

MESQUITA NETO, Nelson Ávila (E. T. C. S.).

1 O BISPO DE ESMIRNA

Desde seu início, a igreja cristã esteve sob severa perseguição. Ferreira (2006, p. 23) destaca que “entre o fim do século 1.º e o começo do século 4.º, houve dez perseguições patrocinadas pelo Império Romano”. O 2.º século encontrava-se exatamente no centro deste período, e a política adotada na época para com o cristianismo era a de que “se alguém os acusava, e se negavam a abandonar sua fé, deviam ser castigados; mas se ninguém os acusava, o estado não devia empregar seus recursos para persegui-los” (GONZALES, 2009, p. 65).

Foi em meio a este momento histórico que emergiu a figura de Policarpo (c. 70-150). Como bem destacou Frangiotti (In QUINTA, 2002, p. 129), “[...] de sua infância, sua formação, sua família, ignoramos tudo”. Todavia, embora não tenhamos quaisquer detalhes destes anos de sua vida, temos algumas informações sobre a sociedade na qual se desenvolveu até chegar ao ofício de bispo em Esmirna, o que poderá nos ajudar a compreender melhor como foi formado o caráter deste grande homem.

Esmirna (hoje Izmir), localizada na Ásia Menor (atual Turquia), era uma cidade portuária a oeste de Éfeso. Sabemos que apesar de enfrentar os mesmos problemas supracitados, os cristãos possuíam ali uma igreja forte e muito respeitada. Das cartas endereçadas às sete igrejas no Livro de Apocalipse, a única a não ser encontrada em falta fora a igreja de Esmirna. Deveras, é belíssimo o testemunho a respeito desta igreja conforme descrito por João (Apocalipse 2:8-11), o qual é encerrado com a promessa: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida [...] O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte”.

Também Inácio de Antioquia, outro a tornar-se mártir, tece grandes elogios na carta endereçada a ela[1]. Logo no início, ela é saudada como uma igreja “[...] repleta de fé e amor, à qual não falta nenhum dom”, e que é “caríssima a Deus”; Inácio ainda descreve aqueles irmãos como “sábios” e “perfeitos na fé imutável” (In QUINTA, 2002, p. 115).

Foi nessa igreja que, como escreveu Ferreira, “Policarpo foi formado, educado e feito bispo”. Todas as informações que temos a seu respeito “[...] surgem a partir de seu serviço pastoral, como bispo, à frente da comunidade” (2006, p. 24).

Frangiotti (In QUINTA, 2002, pp. 129, 130) atesta que é possível reconstruir a personalidade de Policarpo a partir de alguns testemunhos fidedignos, tais como “[...] as freqüentes referências de Irineu de Lião, seu discípulo”. Segundo Frangiotti, na própria “Carta aos Filipenses”, Policarpo “[...] revela toda a sua alma, seu coração compassivo” e “sua compreensão para com os fracos”.

É importante destacar ainda uma peculiaridade acerca da ordenação de Policarpo ao episcopado da igreja em Esmirna. Segundo algumas fontes históricas, ele teria sido ordenado pelos próprios apóstolos. Ferreira (2006, p. 25) aponta para dois testemunhos importantes acerca deste fato: 1) o de Tertuliano, o qual declara que “Policarpo teria sido ordenado [...] pelas mãos do próprio apóstolo João, ‘segundo a tradição daquela igreja, do mesmo modo que a igreja de Roma afirma que Clemente fora ordenado bispo por Pedro [o Apóstolo]’”; e 2) o testemunho de Irineu, o qual menciona que Policarpo “não apenas foi discípulo dos apóstolos e viveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, mas foi estabelecido bispo da Ásia, na igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos”. A simples declaração de tal fato, ainda de acordo com Irineu, teria “[...] levado à conversão muitos dos gnósticos” em Roma, quando Policarpo ali estivera, “na época do bispado de Aniceto”.

As informações mais claras, porém, das quais dispomos concernentes a Policarpo, não dizem respeito ao modo como viveu, mas, sim, ao modo como morreu. Uma carta escrita pela igreja de Esmirna, e enviada à igreja de Filomélio, descreve em “detalhes aterradores”, como expressa Olson (2009, p. 47), o que ficou conhecido como o “Martírio de Policarpo”. Nela, lemos sobre o modo como o bispo de Esmirna foi perseguido e como, espontaneamente, se deixou capturar. Está escrito que após ser encontrado, Policarpo mandou servir uma refeição aos seus captores, solicitando apenas uma hora para orar antes de ser conduzido às autoridades (In QUINTA, 2002, p. 149).

Diante do procônsul, Policarpo se manteve firme. Quando solicitado que declarasse “Abaixo os ateus!” (como eram chamados os cristãos por não adorarem os deuses pagãos), Policarpo olhou “[...] severamente toda a multidão de pagãos cruéis no estádio” e, apontando para eles, disse: “Abaixo os ateus!” (In QUINTA, 2002, p. 150). Incitado a amaldiçoar o Cristo, ele respondeu: “Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?” (In QUINTA, 2002, pp. 150, 151). Desprezando, assim, a ameaça de ser lançado às feras, foi sentenciado à fogueira. Antes de ser queimado, orou, bendizendo a Deus por ter sido “[...] julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires”, e do cálice de Cristo, “[...] para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo” (In QUINTA, 2002, p. 153).

Ferreira (2006, p. 28, 29), citando Curtis, Lang & Peterson, destaca que “nos 150 anos seguinte [...], à medida que centenas de outros mártires caminharam fielmente para a morte, muitos foram fortalecidos pelos relatos do testemunho fiel do bispo de Esmirna”.

2 O LEGADO LITERÁRIO DE POLICARPO

De acordo com Frangiotti (In QUINTA, 2002, p. 132), “Policarpo teria escrito várias cartas destinadas às diversas comunidades”. Todavia, a única preservada, “parcialmente em grego e inteiramente em latim”, foi a endereçada aos filipenses. Esta carta, escrita em 110 d.C., embora simples, tem especial relevância pela proximidade de seu autor com os escritores do Novo Testamento. Cairns (2008, p. 63) afirma que Policarpo “pôde conhecer de perto a mente dos discípulos por ter sido discípulo de João”. De fato, Policarpo aponta para questões basilares do cristianismo, das quais a maioria dos Pais se desviaram naqueles dias, como é o caso de sua soteriologia fortemente marcada pela graça e não pelas obras, embora a caridade não houvesse perdido seu devido valor. Logo no início de sua carta ele escreve: “E vós sabeis que é pela graça que fostes salvos, não pelas obras, mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo” (In QUINTA, 2002, p. 139).

Policarpo faz grande uso do Novo Testamento, tendo-o em posição igual ao Antigo, apontando freqüentemente para as epístolas paulinas. Cairns alista 60 citações do N. T. na Carta do bispo de Esmirna aos filipenses, sendo 34 destas dos escritos de Paulo (2008, p. 34). Segundo Ferreira (2006, p. 26), ele também “estava familiarizado com [...] o evangelho de Mateus, além de citar 1 Pedro, 1 João e Atos”.

Policarpo se preocupa em defender a encarnação, morte e ressurreição de Cristo, provavelmente refutando algum perigo das heresias docetistas e gnósticas (In QUINTA, 2002, p. 143, 144, 151). Para ele, o sacrifício de Jesus foi substitutivo (vicário). “Cristo Jesus [...] carregou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro” (In QUINTA., 2002, p. 143, 144).

Ainda tratando da carta aos Filipenses, Granconato (2010, p. 87), em concordância com o pensamento de Héber Carlos de Campos, atesta que “pode-se facilmente detectar o embrião de uma doutrina que [...] desenvolveu-se ao longo dos séculos”, sendo incluída “em versões posteriores do Credo Apostólico (a partir do século IV)”, figurando no “[...] Credo de Atanásio (séculos V e VI)”, chegando mesmo a tornar-se “[...] afirmação credal comum nos diversos documentos da igreja, especialmente a partir do século VII”, a saber, “a doutrina de que, entre seu sepultamento e ressurreição, Cristo desceu a um lugar chamado Hades a fim de completar ali sua obra de salvação”. Todavia, não poderia deixar-se de mencionar que, em sua carta, ele não chega a desenvolver “[...] os contornos exatos do seu pensamento sobre a descida de Cristo ao Hades” (GRANCONATO, 2010, p. 88).

Voltando olhos agora para a narrativa de seu suplício, parece ser possível inferir uma firme concepção da doutrina da Trindade; isto é evidenciado em sua oração final diante da sentença à fogueira, onde confere glória ao Pai, com Jesus Cristo [o Filho] e o Espírito, “[...] agora e pelos séculos futuros. Amém” (In QUINTA, 2002, p. 153).

A intenção principal, entretanto, de sua carta é fortalecer os irmãos em meio às perseguições, exortando-os a que vivam vidas santas, castas e que glorifiquem a Deus; instruindo-os a respeitarem as autoridades constituídas, tais como os presbíteros e os diáconos, na realidade eclesiástica, e “[...] os reis, autoridades e príncipes”, na esfera civil, pelos quais deveriam orar sempre (In QUINTA, 2002, p. 146).

Policarpo não nos deixou um legado literário muito extenso, mas seu exemplo de fé e ortodoxia continua a fortalecer cristãos, incentivando-os a andar com o Senhor até os dias de hoje, lembrando sempre que “se sofrermos por causa do seu nome, o glorificaremos” (In QUINTA, 2002, p. 144).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAIRNS, E. E. O Cristianismo Através dos Séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2ª Edição, 2008.

FERREIRA, F. Gigantes da Fé. São Paulo: Editora Vida, 2006.

GRANCONATO, M. Eles Falaram Sobre O Inferno: a doutrina da perdição eterna nos primeiros escritos cristãos. São Paulo: Arte Editorial, 2010.

QUINTA, M. (Org.). Padres Apostólicos. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 3ª Edição, 2002.

GONZALES, J. Uma História Ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 2009.

OLSON, R. História Da Teologia Cristã: 2.000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2009.



[1] “Inácio escreveu às igrejas a maioria das suas cartas” (OLSON, 2009, p. 47), todavia, uma foi também dirigida ao próprio Policarpo, quando aquele era ainda jovem.

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